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terça-feira, 22 de maio de 2018


         Começar uma estrada


Eras tu que confundias o fundo
dos jardins com os vasto perfume
de uma estrada. A paisagem entretanto
libertava-se como uma espécie de segredo
que efervescesse num copo de água
e apesar do tempo severo das partículas
nós víamos de facto começar uma estrada.

Pergunto-me o que fizemos desses dias
alugados a uma melhor desconfiança,
o que foi que em nós escolheu
envelhecer sem ambição,
onde é que a noite parou de crescer,
em que consiste a música extrema
dos desembarques.

No fim, as flores aprenderam a prolongar
o frio das estátuas. A estrada perdeu-se
como alguém tinha previsto que o universo
se perderia se fosse por de mais escrutinado.
Os dias devoraram a paisagem.

E inadvertida, a tristeza afundou-se
no coração do matagal.
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 Domingues, André. Tempestade das mãos. Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2017, p 60.
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     Os teus retratos


Fecho os olhos e descubro.

Há um secreto odor de lobo por todo o lado
onde o amor cresceu contra a espessura
de um destino.
Há um idioma repulsivo como uma manta de retalhos
uma mágoa navegável, uma máquina de culpa.
Há uma voz do avesso e uma música
irrefreável que pulsa.

O dia é trânsito absoluto. Oração sem luz.
A pobreza extrema de uma fábula.

Agora sei: o estranho costume de sofrer por ti
deixou-me puro. A dor, entretanto, foi perdendo
o pormenor. O mundo elidiu o alívio.
A casa tornou-se parte do pó.

Já não há história, mas uma máscara
que flutua sobre a fama dos despojos.
Já não há pureza na página,
no tempo, na conjugação.

Chegarei a ti com a convicção lenta dos crepúsculos
suportando uma moldura de instantes desarmados.
Chegarei sem saber como saciar a minha chegada.

Chegarei a ti inútil como a morte.
Com a calma delirante de um fracasso.
Sem fogo nem perguntas: nos lábios
apenas o grito branco de uma praia.

E tu dirás o quanto o silêncio te pesa
entre as rosas e as falsificações.
E no meio das tuas mortes predilectas
eu vou outra vez erguer a voz.
E só então a noite suspenderá
os teus retratos.


 Domingues, André. Tempestade das Mãos. Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2017, pp 25-26.
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sexta-feira, 7 de julho de 2017



              "O Reincidente"


   Tenho a sensação constante do equívoco, como o ladrar
esquartejado de um cão sobre um fundo de lamentos e
espadas. Assisto, impávido, ao suicídio sumário das horas
que não me pertencem. Às vezes apetece-me encostar um
fósforo aceso ao mundo, mas o mundo despreza esta e outras
formas de sagacidade. Acordo em completo desacordo com a
minha condição. Acordo em consonância com a velocidade
e a desfocagem, como se pertencesse à casta mais baixa de
uma colónia de térmitas. Acordo completamente cego. Sem
asas. Vitalmente imaturo. Predestinado para a concepção
honrosa de túneis, apto para descobrir água e alimento,
sempre com o cuidado de zelar pela alta eficácia do
reino. Acordo, acordo sempre de tudo, mas nunca desperto
de nada.


  Domingues, André. Dramas de Companhia. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2016, p 40.
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