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quarta-feira, 22 de novembro de 2017



                         Partiste. Eu gelo...


Partiste. Eu gelo os dias
a conjugar os verbos da ausência -
modos e tempos da melancolia:
e com essa certeza vou vivendo.

E se longinquamente amanheceres,
se a tua ausência se medir      por anos,
uma nova gramática terei
d'inventar pois: para vencer desânimos.

Tu partiste - regressarás talvez,
e eu     preso à solidão     mas aguardando
ouvir teus passos leves no passeio
(uma igual ilusão... de quando em quando).


 Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 98.
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                          Cantar-te


Não cesso de cantar-te: a ti que és só
uma constante ausência e um desejo
de possuir-te      sem saber que forma
virás tomar ao pé de mim - surpresa

que ficarás por me encontrares:     próvido
de quantos sonhos      quantos desesperos
vividos revividos      em segredo
numa secreta e apaixonada voz


que ciciava dentro do vazio
do meu peito febril sempre a fremir
como eras tu     em ânsia     permanente...

Cantar-te: seja apenas a miragem
de te pensar     em dádiva a meu lado -
fruto do meu precário pensamento.


  Salvado, António. De Tão Cansada a Esperança seguido de Liames. S/c.: A.23 Edições, 2017, p 18.
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016


A presente obra - que engloba poemas desde o livro A Flor e a Noite (1955) até ao livro As Linhas que Perduram (2016) - foi publicada por ocasião do Doutoramento Honoris Causa atribuído a António Salvado pela Universidade da Beira Interior.
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    "O olhar de ver"


Em tudo o que tu vês    eu moro aí,
em tudo o meu olhar    a ti só vê -
conforto de presença tão contínuo
que não sabe onde surge    onde termina
dentro do modo    o tempo deste ver.

Nem eu alcanço outro horizonte além,
nem tu aqui outra maior distância -
e os olhos bem juntinhos não se lembram
de sentirem em si diverso alento
que não seja    -a tremerem-    a constância.

Por isso    como um lanço    os nossos corpos
ignoram qualquer 'spaço que os separe -
muito encostados    poros sobre poros
olham apenas o prazer que é nosso
com mais desejo encima    até fartarem.


 Salvadp, António. Poemas escolhidos. Castelo Branco: A 23 Edições, p 97 (Nota de apresentação de Margarida Gil dos Reis).
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016


  "A um poeta da estirpe de Horácio"


Fizeste um monumento
de lata    não de bronze
se bem que a tua mente
seja bronze o que esconde.
Nem a mais fina chuva
o há-de corroer
nem esse vento agudo
poderá desfazê-lo.

Com tal perenidade
a ter o monumento,
os anos não são nada
pelo fluir do tempo.
De modo que em ti vive
certa posteridade,
ó rejuvenescido
pelo brilho da lata!


  Salvado, António. Poemas escolhidos. Castelo Branco: A 23 Edições, 2016, pp 51-52 (Nota de apresentação de Margarida Gil dos Reis).

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016


   "De Dinamene a Camões"


Dentro da minha morte vive o breve
engano de teus versos magoados
e a trémula tristeza tão perene
que a vida fez mais longa de alongada

Tens nas mãos a memória quando escrevem
as secretas palavras celebradas
e nos lábios sem ânimo    apartado
o meu nome de carne e de mistério

Fui para ti o musgo sobre a pedra
a placidez das ondas entre o grito
a estrela humilde no teu céu de espera
ao sofrimento    à mágoa    à piedade

Repouso nos teus versos    Mas quem sabe
o sal maior das lágrimas vertidas?


  Salvado, António. Poemas Escolhidos. Castelo Branco: A.23 Edições, 2016, p 26 (Nota de apresentação de Margarida Gil dos Reis).
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sábado, 12 de março de 2016



Mais uma vez as aves    companheiras
do meu silêncio    quando cerro os olhos
me dizem que    brilhante    o dia começou.

Montanhas e depois outras montanhas.
E céus azuis ou céus de tempestades.
E com limite o circular do sangue.

Cavos sons: os adufes
repercutem angústias?
Meigos aprazimentos?


 Salvado, António. Mais uma vez as aves. S/c.: Folio Exemplar, 2015, p 41.
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sexta-feira, 11 de março de 2016



As pontas dos meus dedos
percorrem a extensão
de lugares recônditos.

A peregrinação dos meus sentidos
levando-me aos confins da descoberta
perturba ainda mais este vazio.

Nas oliveiras     pássaros
gritam a primavera
à espera de se unirem.


   Salvado, António. Mais uma vez as aves. S/c.: Folio Exemplar, 2015, p 19.
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