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terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Coração intratável, ainda bem
que não te quiseste acomodar, custasse
isso a dor que me custou ao desatino,
essa exausta barcaça que me leva à deriva.
Ainda bem que cercaste os sortilégios
que em ti se reuniram, alguns deles
perversos, não sei se ilegítimos para quem
aqui chegou tocado pelo fascínio.
Ainda bem que foste fonte de discórdia
e caucionaste este súbito ataque
ao esconjuro com que me confrontei,
por desabrigados vícios tutelares.
Ainda bem que no meu peito vociferas
as frágeis tempestades que aniquilam.
Baptista, Amadeu. Vida Breve. Fafe: Editora Labirinto, 2014, p 23.
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domingo, 28 de dezembro de 2014
A minha poesia chega-me carregada
de infância, embora venha revestida
das adustas dores de eu ser adulto
há demasiado tempo, com o céu sobre
os ombros e uma carga de consumições
pesadas, como pedras sobre o espírito.
O que escrevo provém da solidão contínua
e da constante ameaça, a mesma solidão
e a mesma ameaça que me arrebatou
quando era menino e do deslumbramento
fiz, mais do que refúgio, companhia. É este
um modo de rezar, um modo de ir sobrevivendo
às quedas consecutivas, às febres, aos desgostos
que irão acabar por suprimir-me.
Baptista, Amadeu. Vida Breve. Fafe: 2014, p 9.
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quarta-feira, 2 de julho de 2014
" Monastir "
19 portas e 86 colunas
antecedem o caminho da salvação
- é neste pátio que espero por ti.
Vestido de terra
vi um homem adormecido sobre o mar
- somos o breve fulgor de um gemido branco.
Está juncada de pétalas
a campa rasa
- o eco de Agmat chega aqui?
Sem que o sejas
és a escrava de Silves
- a que o poeta cantou, numa carícia de linho.
Em que cachimbo-de-água
vacila o sobressalto,
a inquieta adaga da perfeição?
És o manancial por que espero,
os teus cabelos cheiram a aloé
- serei velho cansado, mas feliz.
Entro no souk por uma pulseira
com o teu nome gravado
- compro a minha escravidão.
Baptista, Amadeu. Fragmentos Tunisinos. S/c.: volta d'mar, 2014, p 18.
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terça-feira, 1 de julho de 2014
" Bizerte "
Sob o céu tunisino
desejo-te outra vez
- o meu crescente é fértil pelo teu.
Falo sozinho,
ou falo-te, ó ausente
- e tanto me respondes.
Vejo na estrada o nácar cor-de-rosa
que esta noite soletrarei
na tua pele.
Pelo golpe de luz na açoteia
sei o calor que está
- a minha mão na tua.
Chega ao meu coração
a tua voz
mesmo se a tua palavra é o silêncio.
Sou como o poeta
que aguarda o poema
- a qualquer momento irás chegar.
O livro arde no círculo de luz
da treva inaugural
- esquivo-me da morte.
Baptista, Amadeu. Fragmentos Tunisinos. S/c.: volta d'mar, 2014, p 7.
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