domingo, 20 de julho de 2014



   "  Dívida plástica  "

Precisava Yvonne de um jeitinho
como tantas outras agora de mais redondas ancas,
liso pescoço nas revistas do quiosque,
que isto da cirurgia também chegou às bancas.

Talvez um arranjo do peito que lhe pesa
sobre a doçura do flácido ventre...
De rugas desenhadas no risco de um sorriso
sonha com certo lifting que por ela entre.

Fica lindíssima, seio arrebitado é seio novo.
Com esta cirurgia a prestações
ao espelho estende as fantasias,
fabrica as ilusões,

e no seu circulo de jet quase set,
ai rica vida!
sem ter que chegue para o seu sustento,
de conta descaída
as mamas ao banco vai pagando.


      Ferra, António. Livro de Reclamações. Lisboa: Fabula Urbis, 2010, p 41.
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sexta-feira, 18 de julho de 2014





   " Antes chapa que motor "




Trocou o carro amassado
comprou outro mais vistoso
para parecer director
um tipo de papo inchado


Mas não era um deputado
era apenas vendedor
da latas, cremes, papéis
e de almas ao diabo


Ele quer é ser senhor
que se lixe a fome em casa
que para lhe polir a imagem
antes chapa que motor


No carro velho é doutor
pois com cromados a brilhar,
passou a ser respeitado,
antes chapa que motor


E as dívidas ao leasing
do BM apetrechado
de FM ao volante
e um fio prateado?


Para ganhar pão e amor
e a imagem do poder
basta-lhe chapa brilhante
e que se lixe o motor




    Ferra, António. Livro de Reclamações. Lisboa: Fabula Urbis, 2010, pp 37 - 38.
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quinta-feira, 17 de julho de 2014




     "  Antimundo  "


plágio manhoso do big-bang
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo

o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia

oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura

poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência

e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse dia inicial inteiro
e limpo que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída

resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente

a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa

a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos

um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi


   Miguel-Manso. Tojo, Poemas Escolhidos. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2013, pp 18 - 19.
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terça-feira, 15 de julho de 2014





Chegaste cedo chegaste logo ao princípio dos olhos
ainda nem manhãs havia nem estradas nem luzes nos frutos.


Eras como o primeiro vislumbre do sangue
num ouriço do mar. Uma natureza morta
de riso. A mão que vai do homem
até ao começo dos animais.


Ainda nem manhãs havia nem gente
que nos dissesse as horas e os lugares.
Era uma corrente de mar rupestre que pulsava.
Às vezes os sinos ainda fazem lembrar
o torvelinho que havia na saia
e os cabelos um pouco à toa
ermos como as passagens sem guarda.


Estava de grandes esperanças no teu corpo.
Um perto do outro cheirávamos a aves
com muita urgência.


Ainda nem manhãs havia nem havia palavras
mas para ti eu fabricava o silêncio
com todas as letras.




  Almeida, Catarina Nunes de. marsupial. Lisboa: Mariposa Azual, 2014, p 7.
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domingo, 13 de julho de 2014







                  "  Los brazos  "


Cuando seas feliz, cuando todas las cosas
estén a tu favor, y tu vida se vuelva
un lugar habitable, no te acuerdes de mí.
Pero si alguna vez sintieras que la carga
te pesa demasiado; si ya no puedes más,
y empiezas a dudar de ti misma y de todo,
recuerda que hubo alguien que alguna vez te amó
y que hubiesse querido, si le fuera posible,
aliviarte esa carga. Y piensa en esos brazos
ya impalpables, aéreos, y que ya no sabrían
hacerte daño alguno.
                                Y un momento, si puedes,
abandónate en ellos, por favor, y descansa.



     Cereijo, José. Música para sueños. Valencia: Pre-Textos, 2007, p 61.
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       " El amante recuerda "




No todo lo he perdido. Queda tu nombre. Queda
la hondura del silencio después de pronunciarlo.
Queda lo que no passa ni puede passar nunca:
lo que nunca há pasado.




   Cereijo, José. Música para sueños. Valencia: Pre-Textos, 2007, p 45.
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sábado, 12 de julho de 2014



Partiu, na passada 5ª feira, Yann Andréa Steiner (Lemée, 24/14/1952 - Gringam, 10/7/2014) o último amante de Marguerite Duras (Saigão, 4/4/1914 - Paris, 3/3/1996). Conheceram-se era já Duras um nome maior da literatura europeia, tinham 38 anos de diferença, era também diferente a orientação sexual de ambos, contudo, Duras viveu com Yann uma relação intensa, autêntica e, muitas vezes, tumultuosa. Segue-se uma das cartas, ao seu jovem amante, daquela que foi um dos grandes monstros das letras europeias do século XX.
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23 décembre 1980
Yann, C’est donc fini. Je t’aime encore. Je vais tout faire pour t’oublier. J’espère y parvenir. Je t’ai aimé follement. J’ai cru que tu m’aimais. Je l’ai cru. Le seul facteur positif, j’espère, me fera me détacher tout à fait de toi c’est celui-là, ce fait que j’ai construit l’histoire d’amour toute seule. Je crois que tu m’aimes toi aussi mais pas d’amour, je crois que tu ne peux pas contenir l’amour, il sort de toi, il s’écoule de toi comme d’un contenant percé. Ceux qui n’ont pas vécu avec toi ne peuvent pas le savoir. J’ai aperçu quelque chose de ça lors de la première scène à Deauville. – Je me suis dit : mais avec qui je suis ? Et puis tu as pleuré et ça a été colmaté. Mais je n’ai pas oublié cet effroi. Je voudrais que tu saches ceci ; ce n’est pas parce que tu dragues et que tu en passes par le cérémonial pitoyable des pédés que je te quitte.
Tout serait possible, tout si tu étais capable d’aimer. Je dis bien : capable d’aimer comme on dirait capable de marcher. Le fait que tu ne parles jamais, ce qui m’a tellement frappée, vient de ça aussi, de ce manque à dire, d’avoir à dire. Peut-être est-ce un retard seulement, je l’espère. Tu n’es même pas méchant. Je suis beaucoup plus méchante que toi. Mais j’ai en moi, dans le même temps, l’amour, cette disposition particulière irremplaçable de l’amour. Tu ne l’as pas. Tu es déserté de ça. Je vais essayer de te trouver un travail à Paris ou ailleurs, un travail qui te convient. Je veux bien te louer une chambre à Caen où tu as tes vrais amis, […] ceux qui te connaissent depuis toujours, qui ne peuvent plus vivre ce leurre de l’été 80 à Trouville vécu par moi. Je ne te laisserai pas tomber. Je t’aiderai. Mais je veux me tenir à l’abri de cette aridité qui sort de toi et qui est carcérale, intolérable, épouvantable. Je ne sais pas de quoi elle procède, je ne peux pas la décrire, sauf en ceci : qu’elle est un creux, en manque, en vide à côté de quoi ma méchanceté par exemple, est une prairie, un printemps. Vivre avec toi, à coté de toi, non, c’est impossible.
Tu m’as écrit pendant des années justement parce que j’échappais à cette indécence d’exister. Je t’aime Yann. C’est terrible. Mais je préfère encore être à t’aimer qu’à ne pas t’aimer. Je voudrais que tu saches ce que c’est. Quel été, quelle illusion, que c’était merveilleux, ça ne pouvait pas continuer, ce n’était pas possible, seules les erreurs peuvent prendre cette plénitude. Je ne sais pas quoi faire de la vie qui me reste à vivre, très peu d’années. Le crime c’était ça : de me faire croire qu’on pouvait encore m’aimer. En retour de ce crime il n’y a rien. S’il arrive que j’aie le courage de me tuer je te le ferai savoir. Le seul empêchement est encore mon enfant. Je t’aime
Marguerite.
                                                                                                                                                
                                     

quinta-feira, 10 de julho de 2014

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Na FUNDACIÓN ZENOBIA - JUAN RAMON JIMÉNEZ, em Moguer (Andaluzia), no dia 25 de julho, pelas 18:30h, será apresentada ao público a obra ALQUIMIA DEL FUEGO - ANTOLOGIA HETEROGÉNEA DE POESÍA, PROSA POÉTICA Y MICRORRELATO. Este monumental volume foi organizado por SARAH SCHNABEL, SANTIAGO AGUADED LANDERO e JACK LANDES e conta com a colaboração de escritores dos mais diversos países, sendo a representação portuguesa constituída por: Albano Martins, Inês Lourenço, Jaime Rocha, Manuel Silva-Terra, João Reis, Marco Mangas, Maria João Cantinho, Luís Serguilha, Gisela Ramos Rosa, João Rasteiro, Gabriela Rocha Martins e Victor Oliveira Mateus.
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quinta-feira, 3 de julho de 2014





Diante das aves caem migalhas,
Silenciosos pedaços do mundo,
A prometer sustento. Para as aves,
Fazem parte da existência, do
Convívio com tudo o que existe sempre.


Com as migalhas que caem, as aves
Se alimentam, se divertem, se lembram
Que são aves pequenas, que a queda
É apenas o assombro de ser
Não mais do que ave e ave pequena.




   Almeida, Rui. Temor Único Imenso. Fafe: Editora Labirinto, 2014, p 8.
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quarta-feira, 2 de julho de 2014





     "  Monastir  "




19 portas e 86 colunas
antecedem o caminho da salvação
- é neste pátio que espero por ti.


Vestido de terra
vi um homem adormecido sobre o mar
- somos o breve fulgor de um gemido branco.


Está juncada de pétalas
a campa rasa
- o eco de Agmat chega aqui?


Sem que o sejas
és a escrava de Silves
- a que o poeta cantou, numa carícia de linho.


Em que cachimbo-de-água
vacila o sobressalto,
a inquieta adaga da perfeição?


És o manancial por que espero,
os teus cabelos cheiram a aloé
- serei velho cansado, mas feliz.


Entro no souk por uma pulseira
com o teu nome gravado
- compro a minha escravidão.




  Baptista, Amadeu. Fragmentos Tunisinos. S/c.: volta d'mar, 2014, p 18.
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terça-feira, 1 de julho de 2014





          "  Bizerte  "




Sob o céu tunisino
desejo-te outra vez
- o meu crescente é fértil pelo teu.


Falo sozinho,
ou falo-te, ó ausente
- e tanto me respondes.


Vejo na estrada o nácar cor-de-rosa
que esta noite soletrarei
na tua pele.


Pelo golpe de luz na açoteia
sei o calor que está
- a minha mão na tua.


Chega ao meu coração
a tua voz
mesmo se a tua palavra é o silêncio.


Sou como o poeta
que aguarda o poema
- a qualquer momento irás chegar.


O livro arde no círculo de luz
da treva inaugural
- esquivo-me da morte.




   Baptista, Amadeu. Fragmentos Tunisinos. S/c.: volta d'mar, 2014, p 7.
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segunda-feira, 30 de junho de 2014





éramos cinco no apartamento do príncipe real
fazíamos longos passeios ao domingo de sono
íamos ao trumps
íamos ao plateau
e a vida era empurrada entre intervalos.
um dia tu disseste-me as palavras certas:
só vivo o momento, não sei de amanhãs
e eu que tanto queria imaginar o amanhã
fiquei perplexa
o momento e o acaso são inúteis
apetece-me empurrar os momentos todos
e dar-lhes um significado
não gosto de momentos
são episódicos
empanturram-nos de satisfação
até que de súbito queremos acordar amanhã
mas o momento não deixa
para passar o momento
comecei a tomar lexotan




  Barreira, Cecília. Todos os Pecados do Mundo. Fafe: Editora Labirinto, 2014, 27.
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domingo, 29 de junho de 2014





a seguir à morte o maior pecado é o da amizade
ser amigo do alheio?
ser amigo do privado?
a amizade é um pecado tão grande
que ser-se amigo é aquela coisa dúbia
entre empresta-me 100 euros por favor
e partilha a minha dor com a tua dor
a amizade é estranha
a amizade é o reflexo das ausências que tivemos na infância
também há a amizade a um electrodoméstico
também há amizade a uma cerveja
mas aquele olhar cúmplice com que te observo
cada vez que habitamos outros lugares
é a passagem é o ritual com que te amanheço
a amizade é o pecado dos frágeis
e eu sou frágil




   Barreira, Cecília. Todos os Pecados do Mundo. Fafe: Editora Labirinto, 2014, p 12.
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sexta-feira, 27 de junho de 2014



Homenagem a Glória de Sant'Anna na Fundação José Saramago a 27/6/2014: Gisela Ramos Rosa, Andrea Paes, Daniel Maia Gonçalves, Inez Andrade Paes e Victor Oliveira Mateus.
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A fulguração do instante como fundamento da serenidade


na poesia de Glória de Sant’Anna


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          A arte poética de Glória de Sant’Anna funda-se numa cuidadosa e atenta auscultação do real que a cerca e daquele que dentro de si ressuma. Sem adentrar-se nas fórmulas canónicas do realismo, são, contudo, os instantes manifestados pelo real – entendido este como mundo natural ou como mundo vivido e relembrado – que a despertam, maravilham e, muitas vezes, magoam: “As acácias guardam nas tímidas folhas / franjadas e límpidas / a doce ternura / da ausente cacimba.” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988, p 65), “Tanto oiro na tarde / escorrendo do poente // as silhuetas das árvores / são fímbrias de poemas” (In Algures no tempo, 2005, p 21), “quem bateu à minha porta / limpou os pés / deixou os sapatos / e foi-se embora” (In Trinado para a noite que avança, 2009, p 33). Os instantes apreendidos pela poeta apresentam-se geralmente na sua dimensão pictural quer pela beleza das formas, quer pelo exotismo do cenário, quer ainda pela transposição para o poema de dadas ambiências climáticas e temporais: “Por cima dos claros, transparentes búzios / e das lentas algas, / a negra desfia seus tranquilos passos” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988, p.63), “ O azul recente da manhã/ insinua-se/ pelo silêncio das plantas indefesas.// As casuarinas longamente/ hesitam/ entre o apelo do sol e os finos dedos// da brisa quase inútil.” ( Um denso azul silêncio, 1965, in “Amaranto”, 1988, p 135), "Dentro da madrugada clara / o vento é de vidro e a lua é de água, / e por entre as arestas das casas / o mar se alonga e arfa.” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”,1988, p 71).
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De entre a multiplicidade de instantes vibráteis que assolam o imaginário poético de Glória de Sant’Anna encontramos igualmente motivos fortemente marcados pelo humano nas suas diversas facetas: o socioeconómico – “O menino é nu, / e alegre e claro: / veste-se da sombra / das árvores altas”. (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988  , p.94), “ O pescador anda ao largo/ todo perdido do mundo/ - repartido entre o horizonte/ e o azul fundo.(…)// (Vai o destino passando/ ao mesmo tempo/ pelo pescador, pela rede,/ pelo mar e pelo vento).” ( Um denso azul silêncio, 1965, in “Amaranto”, 1988, p 138); o ético e moral – “O negrinho é morto / na noite densa. / (…) / de tão sozinho / de tão ausente, / quem o redime é o tempo.” (Poemas do tempo agreste, 1964, in “Amaranto”,1988, p 99); o urbano – “esguio parecendo / saído das pedrinhas dos degraus / entre um coração de vidro / e ferro duro moldado” (“O elevador de Stª Justa”, in E nas mãos algumas flores, 2007, p 21), “rua sofisticada dos artistas / e das horas românticas // agora os destroços calcinados / são sua vizinhança” (“Rua Garrett”, in E nas mãos algumas flores, p 18; é interessante notar aqui a impressão que o enorme e violento incêndio do Chiado teve, à época, no olhar da poeta); a guerra colonial –




                “Poema Décimo Primeiro”


 


 


 


A negra tombou entre os agrestes ramos


e um súbito espanto.


 


(está morta


e as aves cantam)


 


Do seu ventre aberto ao sol que se inclina


esvai-se o longo fio que a tecia.


 


(está morta


e o vento desliza)


 


Da face suspensa na folhagem magoada


descai o lenço que se desata.


 


(está morta


sob a claridade)


 


…toda já outra sobre o trilho que seguia


ausente das marcas de ódio que pisava


guarda entre os dedos longos da mão abandonada


sinais do áspero matope que a recolherá.


 


(está morta e as aves cantam


e a tarde se consome toda igual)


 


(Cancioneiro incompleto, temas da guerra em Moçambique, 1961-1971, in “Amaranto”, 1988, p.175)


 
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O tema da guerra colonial, na poesia da Glória de Sant’Anna, não pode ser desinserido de todo um ideário ético que trespassa a sua poesia, ideário esse que nos diz que ante o repulsivo de cultivarmos em nós uma qualquer espécie de infra humanidade, que frente ao que de aviltante tem a morte premeditada do Outro e que frente à horrenda injustiça que é privarmos esse Outro do seu direito inquestionável de estar vivo com dignidade e raízes, frente a tal território essencial nenhuma pele tem cor. Apesar da angústia, da nostalgia e dos vários momentos de profunda solidão interior que encontramos nesta poesia, Glória de Sant’Anna – e relativamente ao tema de que falamos, bem como ao livro que acabámos de referir – jamais abre mão, nem da sua solidariedade com o humano nem dessa sacralidade que é o estarmos vivos, independentemente de condicionalismos puramente acidentais, acerca disto leiam-se, por exemplo, os poemas: Sétimo, Nono e Décimo Terceiro do livro Cancioneiro incompleto.
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      Finalmente, e de entre os instantes vibráreis e fulgurantes, ressalvemos o mundo dos afectos do qual podemos destacar, por exemplo, a amizade, veja-se o poema dedicado a Sebastião Alba – “bateu ao portão um dia / bateu ao portão / abri-o // vinha da estrela do norte / bebendo copos de vinho” (“Cantiga de amigo” in Algures no Tempo, 2005, p 16), e ainda o poema dedicado a José Craveirinha – “a areia morna / sorve os teus passos // e a tua fala / contida / retida nos olhos largos” (“Musicando arrabil” in Algures no tempo, 2005, p 27). Convém ainda enfatizar que estes instantes fulgor que acicatam todo um pensar de imagens de que Glória de Sant’Anna se serve na sua arte poética pode assumir duas variantes distintas e, por vezes, autónomas: ou cada estrofe é ela um agora fulgurante e descentrado na organização do poema, ou cada estrofe complementa todas as outras dando azo a que o instante seja agora a própria unidade poemática, como exemplo desta segunda faceta podemos citar o poema “Maternidade” incluído em “Um denso azul silêncio” (1965), poema este que, para além de ilustrar o que acabamos de dizer, dá uma amostra clara da posição da poeta relativamente à problemática da diferenciação étnica:
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          Olho-te: és negra.


          Olhas-me: sou branca.


          Mas sorrimos as duas


          na tarde que se adeanta.


 


        Tu sabes e eu sei:


        o que ergue altivamente o meu vestido


        e o que soergue a tua capulana,


        é a mesma carga humana


 


        Quando soar a hora


        determinada, crua, dolorosa


        de conceder ao mundo, o mistério da vida,


 


        seremos tão iguais, tão verdadeiras,


        tão míseras, tão fortes


        E tão perto da morte…


 


        (…)


 


         Ambas estamos certas


         - tu, negra e eu, branca –


         que é dentro dos nossos ventres


         que germina a esperança.


 


 


     A toda esta multiplicidade de estímulos que se impõem ao ver, à escuta e à interioridade perscrutadora da poeta soma-se o percurso existencial de Glória de Sant’Anna ela-própria, périplo cujas etapas, esperanças e desilusões Eugénio Lisboa tão bem expôs, com o rigor e a acutilância que todos lhe reconhecemos, no Prefácio de “Amaranto”. Ao que, por conseguinte, e como ponto de partida de toda uma poética, nos poderia aparecer como uma súmula de fulgurações visando o absurdo ou o arbitrário, ou ainda que este mesmo ponto de partida poderia apresentar as marcas de tantos dos estilhaços que a implosão do Realismo acabou por disseminar e que vão desde um niilismo burguês com roupagens neo-nietzschianas e de uma anarco-verbalização de cariz assumidamente aristocratizante a uma estética ostensivamente urbana com a consequente ostracização de todos os outros territórios nomeadamente o rural ou o etnicamente diferente, ao que, e como ponto de partida de toda uma poética – frisemos -, nos poderia conduzir a um percurso poético-estilístico mais condizente com o cânone – fluido e efémero como todos os cânones! -, Glória de Sant’Anna seguiu um caminho mais arriscado, mais solitário e, talvez por isso, mais magoado: cinde o ato perceptivo num misto de lucidez e de afastamento, cisão que mais não é do que o antídoto que protege a poeta de toda a emotividade extremada, frente à realidade vemos a autora absolutamente lúcida, mas também sabiamente anestesiada, numa palavra, serena: “ Aqui estou inteira:/ de memória ausente,/ sem fisionomia/ - como uma medalha “ ( Música Ausente, 1954, in Amaranto, 1988, p 51), “ Tudo é sereno e quase vago/ e parece fundir-se/ na minha própria lassidão.// Mas tudo só parece: o dia hoje caminha/ e leva-me de rastos pela mão.” ( Distância, 1951, in Amaranto, 1988, p 30), “ e prossigo por entre muitos seres/ empurrados aos variados alvos/ todos matéria igual em movimento/(…)/ de súbito suspendo-me// do meio da fuligem cor de rosa/ crescida do sol poente/ germina vagarosa para o ar/ a coroa de espinhos de Dezembro “ ( “Caminhando 2 “ in E nas mãos algumas flores, 2007, p 25), Repare-se, e ainda acerca do mesmo tema, no fenómeno de projecção, desvelado neste excerto de poema: “ e é sorrindo que a trazes lentamente/ mantendo a mesma face alva e serena/ e o mesmo calmo aceno alto e tranquilo// e é sorrindo e é firme que prossegues/ como uma espada erguida limpa e nua/ a prender na memória do metal/ o lixo das sargetas e o sangue pelas ruas// e é parecendo ausente que prossegues/ por onde há-de passar um dia o gume/ a isolar a verdade que procuras” ( in Gritoacanto 1970 – 1974, 2010, p 24).
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      Glória de Sant’Anna, frente à multiplicidade temática e à diversidade imagística da sua escrita, não envereda por qualquer procedimento de heteronímia ou por um qualquer psicologismo assente em identidades múltiplas a dizerem-se de acordo com o tempo e o espaço da escrita. Nela encontramos sempre a mesma postura: aquela que vai da fulguração (maravilhada, nostálgica, magoada e algumas vezes mesmo – poucas – alegre ) do instante a uma aquietação do sentir a que chamamos serenidade. Eugénio Lisboa, no ensaio já citado, traduz exemplarmente esta tese: “Decantada de todo o supérfluo, só já conseguem detê-la, por um breve momento, estrelas e silêncios. Aí, nesse espaço rarefeito, ainda algum prodigioso encontro poderá ocorrer…” (in Amaranto, p 20).
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      O mar adquire, por fim, essa dimensão justificadora e, diríamos mesmo, de base psicanalítica, não só de uma postura de acalmação, mas também da matéria-prima de um olhar e de um dizer poéticos: “Silêncio aberto/ de plenitude/ como uma ilha/ num lago fundo./(…) É este agora/ deste momento/ em que estando me ausento.” (Um denso azul silêncio, 1965, in Amaranto, 1988, p 123), “ Doce momento/ de entendimento.// Esperança liberta/ na água inquieta.// É o mar enorme/ quem intercepta o sofrimento.” (Livro de Água, 1961, in Amaranto, 1988, p 86), “ O pescador está morto no fundo./ E o pé, lho sustém um coral/ Desfez-se o m’cota e está nu/ - nu e livre dentro do mar.//(…) E por isso todas as palavras/ e apelos e gritos e lágrimas/ se dispersam na sombra do vento/ e no azul secreto da água.” (Desde que o mundo e 32 poemas de intervalo, 1972, in Amaranto, 1988, p 190). E é deste solo matricial: vivificador, apelativo e uterinamente aquífero que advêm quer a serena firmeza do olhar de Glória de Sant’Anna, quer a exactidão poética da sua palavra, geralmente nostálgica, mas sempre atenta: “Palavras me trespassam./ Claras frases. (Sem densidade quase).// Tão exactas,/ diluindo meu contorno (que inda sou).//(…) Que já não sei se estou/ obscura e idêntica,// ou broto sem defesa (repartida)/ na verde transparência de outra hora.” (Um denso azul silêncio, 1965, in Amaranto, 1988, p 131).


 


              “ O mar “


 


    Porque ê sempre o mar?


    Porque é concreto


   está cheio de morto e certo


 


   Na pálida esteira


   que vamos deixando


   tudo é origem-mar-humano


 


   Eu própria, tu,


   da cálida água


   da transposta água andamos


 


   Porquê sempre o mar:


   é isso


   - os mortos, as algas, as marés, os vivos.


 


   (E também a forma


   a cor, o tecido,


   quando a claridade da hora o decide.)


 


 


           in “ Amaranto “, p 202


 


 


     A poesia de Glória de Sant’Anna é, por conseguinte, inseparável de um iniludível confronto com a imposição dos instantes, com o resplendor da paisagem africana que sempre assumiu e fez sua, com uma lucidez geralmente magoada e assente num voluntarioso desdobramento do eu e com a presença indelével do mar, substância originária a que tudo volta, mesmo quando o coração fica – intacto – “ junto à raiz das acácias rubras “ (cf. Amaranto, p 73), e é assim, de uma tecedura sabiamente doseada, que a escrita desta poeta irrompe, também ela, em constelações de indefectíveis instantes:


 


 


                             


         Mateus, Victor Oliveira. Nova Águia, Revista de Cultura para o Século XXI, Nº 14 - 2º Semestre, 2014, pp 169 - 172.
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quarta-feira, 25 de junho de 2014





     "  Epitáfio  "




Eu um dia serei uma poalha de vento
pousando inadvertidamente em tua face


e me sacudirás


Eu um dia serei uma réstia de chuva
caída por acaso em tua fronte


e me sacudirás


E eu um dia serei a última lembrança
imponderável já na tua mente


e então me esquecerás




  Sant'Anna, Glória de. Amaranto, Poesia 1951 - 1983. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1988, p 220.
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segunda-feira, 23 de junho de 2014





     "  Batuque  "




A negra salta e não cansa.


Entre o denso mar pálido
e a clara poeira,
a corda balança.


A negra se ergue e sorri.


Entre o leve céu pálido
e as dolentes árvores
e o tambor que vibra.


A negra se ergue e é esguia.


Dentro do batuque
e da ritmada corda
e do morto dia.


Não há segredo na boca tranquila da negra,
nem antigas e vãs perguntas que se percam,
nem místicas dúvidas ou esquecidos gestos.


Ela se ergue como uma lança, e entre o céu e a poeira
simplesmente
dança.




   Sant'Anna, Glória de. Amaranto, Poesia 1951 - 1983. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1988, p 68.
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sábado, 21 de junho de 2014



(No VII Encontro de Escritores Moçambicanos, no dia 27 de junho, na Fundação José Saramago - em Lisboa -  a minha conferência será às 14:45. O tema encontra-se referido no programa)
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VII ENCONTRO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA
SEXTA-FEIRA – 27 DE JUNHO

14h00 Recepção e boas-vindas por Delmar Maia Gonçalves (Curador dos EEMD)
14h05 Pilar Del Rio (Presidente da Fundação José Saramago) a confirmar...
14h15 Dra. Fernanda Lichale (Embaixadora de Moçambique) a confirmar
14h25 Francisco Nunes Ramos (Observatório de Língua Portuguesa)
14h35 Mário Máximo (Escritor e Presidente do Conselho de Administração da Municipália) - “Língua Portuguesa factor de união”

14h45 Homenagem Póstuma à escritora Moçambicana Glória de Sant’Anna
Com a presença de Inez Andrade Paes e Marinez Andrade Paes.
Víctor Oliveira Mateus – “A fulguração do instante como fundamento da serenidade na poesia de Glória de Sant’Anna”
Inez Andrade Paes – “O silêncio das manhãs”

15h00 Momento de dança de ventre com Susana Amira

LITERATURA MOÇAMBICANA
15h10 Ascencio de Freitas – “A Reconquista de Olivença” (Prémio Vergílio Ferreira) Comentário do autor ao seu próprio romance.
15h20 Delmar Maia Gonçalves – “Tchanaze, a Princesa de Sena” de Carlos Paradona Rufino Roque
15h30 Maria Paula Meneses – “Moçambique no Índico: as linguagens dos sabores”
15h40 Fernanda Angius – “Os escritores emergentes no panorama literário moçambicano”

15h50 HOMENAGEM
Sónia Sultuane – “Breve intervenção”

LITERATURA MOÇAMBICANA
16h00 Alex Dau – “Percursos e experiências na Literatura Moçambicana” (a confirmar)
16h10 Madalena Mendes – “Em transcurso pelas veredas das paisagens literárias”
16h20 Filipa Vera Jardim – “Nos Terra”
16h30 Jorge Viegas – “Navegação sem bússola na poesia moçambicana”

16h40 LANÇAMENTOS
“Mares de Olhares em Mestiçagens de Poesia” de Delmar Maia Gonçalves

16h50 Momento de dança com Jovens Marrabenta

17h00 Encerramento


SÁBADO – 28 DE JUNHO

10h00 Recepção – reabertura do encontro por Delmar Maia Gonçalves

LUSOFONIA
10h05 Rodrigo Sobral Cunha – “Lusotropia”
10h15 Carlos Jorge Pedroso – “Lusofonia e Diáspora”
10h25 Rodrigues Vaz – “Lusofonia: mitos e patranhas”

10h35 LANÇAMENTOS
Apresentação da Revista Nova Águia nº13 com Renato Epifânio

INTERCULTURALIDADE
11h00 Danilo Salvaterra – “A Casa Internacional de São Tomé e Príncipe em Portugal”-Uma Missão para o Mundo
11h10 Manuel Dias Duarte – Conversa sobre o livro “Mulheres com poder e autoridade – contributos para a reintegração das mulheres na história”
11h20 Rosa Vaz – Uma Artista Plástica Angolana “25 anos de Arte”

11h30 Momento Musical com Talenti Tanto
11h45 LEITURAS DE POESIA
Sibila Aguiar | Lourdes Peliz | Liliana Lima

12h00 LANÇAMENTOS
Autores da Editora Mágico de Oz
“A vida Inspira-nos” de Márcio Batalha(Poeta Angolano)
“A noiva da colina” de Francilangela Clarindo (Escritora Brasileira)

12h30 Almoço livre

14h00 LANÇAMENTOS
“Poalha de MusaM’Biki” de Ribeiro-Canotilho

14h20 LEITURAS DE POESIA
 Fernando Grade | Vera Novo Fornelos

14h35 LEITURAS DE POESIA
Gisela Torquato Cosme | Luís Ferreira | Carlos Peres Feio

14h50 HOMENAGENS
Hosten Yassine Ali

15h00 LANÇAMENTOS
“Da Poesia? Ou de como se justifica um ponto de interrogação.”
de Jorge Viegas

15h20 LEITURAS DE POESIA
Conceição Oliveira | Ana Dias | Lopito Feijoo

15h35 LEITURAS DE POESIA
Isa Fontes | Luísa Demétrio Raposo | Goretti Pina

15h50 “A poesia angola no caminho doloroso da História”
Zetho Cunha Gonçalves | João Melo | José Luandino Vieira

16h20 Momento Poético-musical com Fercy Nery

16h30 LANÇAMENTOS
Antologia Universal Lusófona “Rio dos Bons Sinais”

17h00 Encerramento

quinta-feira, 19 de junho de 2014





     "  Solidão  5  "




quem bateu à minha porta
limpou os pés
deixou os sapatos
e foi-se embora




     Sant'Anna, Glória de. Trinado para a noite que avança. S/c.: Edição de autor, 2009, p 33.
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            "  Solidão 3  "




todos os ruídos
me agridem


me envolvem


me ferem


e constroem paredes
de vidro




  Sant'Anna, Glória de. Trinado para a noite que avança. S/c.: Edição de autor, 2009, p 31.
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quarta-feira, 18 de junho de 2014



                        " A Fábrica "


As negras chaminés, quais bocas tenebrosas,
Cospem no azul negros escarros pestilentos
Dum fumo que envenena as paisagens nervosas
E que os lúcidos céus nos torna nevoentos...

A fábrica trabalha, e silvos estridentes
Cortam, como uma espada, a trágica atmosfera.
Há rodas a girar, grandes fornos ardentes,
Terríveis como o olhar sangrento da Quimera!

Lívidos rostos, como lágrimas, orvalham
Os vapores que vão mover as engrenagens.
Há negros vultos revoltados que trabalham,
Enquanto o sol fecunda o ventre das paisagens!

Vem visitar, ó Dante, este medonho inferno,
Os negros antros do Trabalho e da Miséria...
Cavernas onde geme o sofrimento eterno
Que tem no rosto magro a palidez funérea!

Anda ver, ó Poeta, os antros do Martírio,
Os modernos Titãs que hão-de escalar os céus...
E nas forjas, a arder, as chamas em delírio,
Que, porventura, anima a cólera de Deus!...

E a bigorna onde forja a Dor o raio ardente
Que há-de o mundo imperfeito e injusto fulminar!
Mas nesta escuridão eu vejo claramente
O brando alvorecer dum místico luar...

E da Fábrica cruel, cheia de fumo e treva,
De grandes corações amargos, sofredores,
Um grande sonho, ó Deus, fantástico se eleva,
E envolvem a oficina estranhos esplendores!...


   Pascoaes, Teixeira de. Para a Luz, in Obras Completas, Volume II ( Introdução e aparato crítico por Jacinto do Prado Coelho). Amadora: Livraria Bertrand, 2ª Edição, pp 75 - 76.
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