quinta-feira, 27 de agosto de 2015

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XII 4


Ahora las diosas ya no bajan al Pireo incentivando a sus audaces protegidos, ni siquiera se sientan alrededor de Zeus padre, mirando hacia dentro del Canto V de la Ilíada, para después -prudentemente- tomar partido por Afrodita o por Atenea. Ahora las bellas y sobrehumanas ya no inspiran ni a Teócrito ni a Píndaro, ni limpian la mirada de Heródoto o de Tucídedes. Ahora las diosas ya no quieren ser inmortales y se sientan de madrugada en los bancos de Cais do Sodré bebiendo cerveza y recuperando, com el aire del río, las inflamadas mucosas nasales. Ahora las diosas - aún tan jóvenes y deseables - no bailan ya al volver de las aras de Lesbos o de Samos, perdieron las guirnaldas en el tranvía 28, rasgan sus túnicas en las terrazas de Príncipe Real y despiertan a un nuevo día - sin ni siquiera pensar en Lorca - allá por las cinco de la tarde. Ahora las diosas usan hasta pequeños esprays de bolsillo, no vaya algún fauno beodo a decir que su pecho arde   por ellas todavía.


Victor Oliveira Mateus, Negro Marfim (Ed. Labirinto, 2015. Trad. José A. García Caballero)
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terça-feira, 25 de agosto de 2015





            "  Pavimento  "


A musa não aparece, deve ter sido avisada,
e o poema não perdoa quando dás um passo
em falso. Cuidado com o que fazes
para conseguires o que queres. Tens um saco
de sal mágico, um minúsculo pára-quedas
e um sorriso destinado a confundir.
Tudo coisas que, porém, raramente funcionam
à primeira. Estando assim por tua conta,
só te falta perceber a inépcia dos travões
e o ângulo relativo no momento do impacto.


 
   Nogueira, Vítor. Segunda Voz. Lisboa: Averno, 2014, p 26.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2015



                     "  Versos  "


Foi só uma vez, não posso condenar-te.
Deixaste para trás a tua própria sombra. Mas aquele
não eras tu. Não eras tu no teu perfeito juízo.


A sombra, em todo o caso, logo foi em teu socorro,
apanhando lentamente pedaços da tua vida,
versos e mais versos de proveito duvidoso.
E a verdade é que de pouco adiantou:
no final desse dia, como sempre, envelheceste.


Devias arranjar um ofício, rapaz,
um que seja útil, pôr de lado a poesia.
Quem mais recentemente declinou os teus serviços?


  
    Nogueira, Vítor. Segunda Voz. Lisboa: Averno, 2014, p 19.
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terça-feira, 18 de agosto de 2015





Trazei-me um homem honesto
a esta síria ibérica, com ele
partilharei saberes e sabores:
mesa e cama e um plano
de ruína dos muitos inimigos.


Não desdenhai minha oferta
por uma vez, que os próximos tempos
são de exuberância na multiplicação
de velhacos e canalhas, e nem será
o pior dos males!


Garantem-nos agora que já só resta
o mal para nossa enfermeira da bon-
dade, porque o bem não chega
para todos.




   Domingos, Paulo da Costa. "voici la poésie ce matin". Lisboa: Averno, 2014, p 17.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2015





    " O que chegamos a entender "


No dia em que sabemos o que deixámos nesta terra,
invade-nos primeiro o desalento de tanto que não fizemos.
Depois consideramos a quem demos amor
e de quem o recebemos. Às vezes
surgem amigos do fundo da memória e dizem-nos
" sempre estivemos aqui" ;
e isso compensa-nos dos que julgávamos amigos e nos traíram,
com a naturalidade de quem também sempre ali esteve
para trair e não espera censuras,
porque essa foi a sua missão na terra.
De resto, trair e ser traído
são muitas vezes as duas faces de um mesmo rosto,
sereno e imutável
face à noite que cai.




   Mendes, Luís Filipe Castro. A misericórdia dos mercados. Porto: Assírio & Alvim, 2014, p 55.
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015



Ó centro do prazer puro, partiste
E levas o que fui, entre arvoredos,
Como um balão fugido entre os dedos
Qual lágrima excêntrica caíste?
Eu que era tão soberbo no que eu era
Pisando sobre nuvens o meu trote
E ali engalanado fui dichote
De mim mesmo enganado fui quimera.
Ando sem gosto, amargo, sem esperança...
E agora estou tão só, oh, ando triste.
Não sei o que 'inda em mim 'inda resiste
Neste catorze de Julho... Viva a França!
Está frio. Sinto os rins. Nada me anima.
Vai alto o meu balão. Baixa auto-estima.


 
  Jonas, Daniel. Nó. Porto: Assírio & Alvim, 2014, p 40.
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terça-feira, 11 de agosto de 2015

Nota - Segue-se um dos meus poemas preferidos e que também integrará a obra já referida.
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       COMENTARIO DE ADRIANO A YOURCENAR




Somos los viajes que hicimos, el ansia de encontrar
en el alboroto de los hombres todas las ciudades que debíamos
construir. Somos esta inmortalidad a la que los dioses
nos condenaron y que ahora disfrutamos con la irreverente
naturalidad que algunos entienden por frialdad
pedante o por un aristocratismo que en verdad
nunca sentimos. Somos el azul inconfundible del Egeo
con sus islas y templos, con sus ruinas y colinas
donde las más antiguas voces todavía se levantan,
para después enmarañarse en agitada distracción
de los hombres. Somos este vacío que quedó, esta memoria
de lo que ninguno de nosotros consigue huir: tú a vigilar
un cáncer despiadado, yo con un ahogado entre los brazos.
¡Ambos derrotados antes de tiempo! Ambos con toda
la gloria que nos insistía, a pesar de nuestro cansancio,
de nuestro aislamiento, de nuestra hambre de silencio.
Somos esta culpa por no habernos entendido,
por no haber sabido leer ternura y merecimiento,
por haber dejado escapar lo que al final era
bien nuestro por derecho y corazón. Somos este fuego
que no tiene nombre. Este monstruo que todavía nos devora
y envenena las mañanas, cuando, insomnes,
tanteamos a ciegas la penumbra y no encontramos
sus rostros, sus cuerpos que se prolongan
de nosotros, su respirar que nos insufla la vida
y cuya ausencia nos dibuja hoy esta muerte
que se aproxima. Somos este aciago anochecer,
este trémulo deambular, que, en el soplo ordenador
del mundo, espera la barca que nos devolverá
todo aquello que no cuidamos como debíamos.




                                            (Traducciones de A. P. Alencart)
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Nota - versão castelhana do poema anterior. A tradução desta Antologia é de autoria de Alfredo Perez de Alencart.
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                   «FRENTE AL ESPEJO»


                                             ni piedra de un palacio,
                                             ni piedra de una iglesia;
                                             como tú,
                                             piedra aventurera.


                                          León Felipe, en «Como tú…»




Pensarme piedra desplazada y de aventura
muy diestra por exilios sobre la tierra
y entre formas donde la vida siempre yerra
en gloria (traicionera) que poco dura.




Dibujar mi senda disconforme y pura
en patrias marcadas de odio y guerra
que en la esperanza pérfida venganza hierra
armas de vileza que mi escrito clausura.


¡Pensarme piedra y nada más! ¡Maravilla!
Como ella, ser cosa callosa y cantante
a la orilla de la vida. Entre piedritas y gravilla


también pasar sobre mí: fugaz y circunstante
en busca de aquella madrugada que brilla
en lo que de mí quedará — claro y anhelante.




                   Victor Oliveira Mateus ( Traducción de Alfredo Perez Alencart)
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Nota - será publicada este ano, em Espanha, uma Antologia com poemas meus dos últimos anos. O soneto que aqui é postado, dedicado à figura e obra de Léon Felipe, é um dos inéditos que integrará a referida obra e que aparecerá, como é óbvio, na sua versão castelhana.
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                                  “  Frente ao espelho  “

 

                                                  ni piedra de un palacio,
                                                 ni piedra de una iglesia;
                                                 como tú,
                                                 piedra aventurera.

 

                                                     Léon Felipe, In “Como tú...”

 

 

Pensar-me pedra deslocada e d’aventura
em destreza por exílios sobre a terra
e por entre estilos onde a vida sempre erra
em glória (traiçoeira) que pouco dura.

 
Desenhar minha senda inconformada e pura
em pátrias vincadas d’ódio e guerra
que na esperança pérfida vingança ferra
armas de vileza que minha escrita mura.

 
Pensar-me pedra e nada mais! Maravilha!
Como ela ser coisa calejada e cantante
à beira da vida. Entre seixos e gravilha

 
por mim também passar: fugaz e circunstante
em busca daquela madrugada que brilha
no que de mim ficará – claro e anelante.

                

 





Não sei o que fiz antes de te amar.
Não sei que vão comércio ou vã empresa,
Que Estrada percorri, que luz acesa
Deixei pra que voltasse pra apagar.
Foi tudo um sono, um rente entorpecer.
O que fizemos nós, tão sós no mundo?
Não sei que vão pensar meditabundo
Tornou sua razão razão de ser.
Nem lembro... somos breves, uma onda
Que quebra no olhar sua saliva
E a renda delicada rende aos seixos...
Mas hoje a minha vida quero-a viva!
Pensei que eram vigílias meus desleixos...
Agora a minha noite o dia ronda.




    Jonas, Daniel. Nó. Porto: Assírio & Alvim, 2014, p 20.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2015



  " Versos do desconsolo "


fiquei com pouco tempo
para dar à claridade,
e as abelhas já não vêm
pôr mel dentro das rosas.


às vezes, a minha sombra
é um pedaço de risco,
qualquer coisa desavinda
a que o Sol quer dar sustento.


quem disse que a memória
é sempre muito antiga?


quem falou de uma aranha
para tecer a eternidade?


 
    Botelho, Emanuel Jorge. Fecho as cortinas, e espero. Lisboa: Averno, 2014, p 19.
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domingo, 9 de agosto de 2015





   " Epígrafe para um livro de horas "


resta muito pouco de tudo o que se quis;
um sorriso de bolso,
duas sextas-feiras de dar sorte,
e um quase nada de Lua.


o chão ficou sem pássaros
para catar sementes,
semeado, por inteiro, com pregos de cruz.


aqui já não se morre de morrer,
e até a morte está cansada.


e agora?




  Botelho, Emanuel Jorge. Fecho as cortinas, e espero. Lisboa: Averno, 2014, p 9.
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sábado, 8 de agosto de 2015





(...)


És apenas o rapaz debruçando-se
sobre a manhã, sobre o inconsolável


de uma morte súbita, definindo
o reconhecível corpo sob o lençol


que segue a linha do seu fim,
que exige milimétrica






reserva, prestígio de mãos hábeis,
o nada da sua morada.


Ainda abrigas a dura contenda
das serpentes no deserto?


Vais tomando-te por pedra,
pedra afagada por devorações e usuras






sem medida ou conhecimento
ou palavras que as tome


na sua espelhada dureza,
macias frondes em pedra brunida pelo vento,


pela água, pela acção
devolvida de um tempo geológico






que excede a doce sílaba
conquistada pelo pensamento.


Arde hoje, amanhã gritarás,
depois serás simplesmente oco,


o homem oco, a cabeça mineral
de olhos cerrados




    Quintais, Luís. O Vidro. Porto: Assírio & Alvim, 2014, pp 42- 45.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2015



  "  A Carta  "


Senhores:
hão-de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos


Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão


Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira


Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai


Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas,
eu, que as fui construindo devagar,
nas escuridão da cela


O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários


Não fui só voz:
fui eu, dona de mim, porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso


Só para isso me valeu viver,
para compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei


Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário


Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência


Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura


E os actos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura


E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui


Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus


Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência


Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói -




  Amaral, Ana Luísa. Escuro. Porto: Assírio & Alvim, 2014, pp 52 - 54.
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terça-feira, 30 de junho de 2015

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sinal da cruz ajuda, pelo menos libera
mas Deus não acho que goste de ser invocado
entrar na sujeira da vida, lambuzar-se na lama
a não ser que Deus fosse como ele, penasse
como ele, mas daí não servia, não adiantava
não mandava em nada, não mudava nada

    Oliveira, Vera Lúcia de. O músculo amargo do mundo. São Paulo: Escrituras Editora, 2014, p 61.
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lavava a roupa
e a roupa levava fiapos
de seu corpo pelo ralo
um dia ia ficar tão
rala que sumiria
pelo buraco do cano


  Oliveira, Vera Lúcia de. O músculo amargo do mundo. São Paulo: Escrituras Editora, 2014, p 27.
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Podem não conseguir nada.
Podem ser meticulosa
e requintadamente sufocados.
Podem até - quem sabe? -
ser passados a fio de espada, um a um.
De tudo o que é vil e hediondo
os poderão mesmo acusar,
através de cúmplices subornados,
de servos esperando um novo degrau
na hierarquia social,
de proxenetas que na ágora vendem agora
a honra alheia como outrora o peixe podre
com baba de larva à mistura.
De tudo serão capazes tais carcereiros.
Ou melhor: de quase tudo,
já que o sabor doce e portentoso
do grande não, esse,
esse parece ter-lhes escapado de vez.

V.O.M.



sexta-feira, 26 de junho de 2015

   " Teu olho fixa a bruma "


O teu olho embebido de tristeza
vê a bruma pesada de melancolia,
Virgílio e o mar da sua fantasia,
e tu carente de absurdos e beleza.


O teu olhar é mais olho do que sente
interiormente que do visual exterior
será tua alma vagamente ausente
quem entristece a bruma da paisagem?


E face ao ciclone, ao furacão, revolto
há-de teu olho resistir mesmo feliz,
e ser abstracção do violado real?


Dividido entre o naufrágio e a monção
entre o que és e o que vês, aceno vago
e desespero interior teu olhar voga.


   Lemos, Virgílio de. A Dimensão do Desejo. Maputo: AMOLP, Associação Moçambicana da Língua Portuguesa, 2009, p 106.
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...
a única luz é um fio
e não há nada a perder
nunca há alguma coisa
contrária à sua natureza
o vosso rosto levanta-se com o sol
o entorno é este pranto
dos pássaros
esperanto esperando-vos
pão e côdea reunidos
a caminho da mesma boca
sem peixe o pássaro
pode ser alcançado pelos gatos.


   Aguiar, Isabel. A Língua de esperanto dos pássaros. Fafe: Editora Labirinto, 2015, p 18. 
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quinta-feira, 25 de junho de 2015

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(Ver abaixo, na minha nota, a referência à vertente psicologista que Vallet usa também na multidisciplinar análise deste caso, ilustrada aqui por este excerto) 


  Oscar Wilde est bien aussi asocial que le marquis de Queenberry. Tous deux se cherchent donc des plaisirs hors normes, l'un dans les outrances verbales et l'autre dans les excès sportifs. Le premier trouve son bonheur dans l'invention des mots et le second dans l'exercice du corps (...).
  Cette différence explique largement l'ascendant qu'exercera Oscar Wilde sur le fils de Queensberry, Alfred Douglas, rencontré quatre ans avant le procès. Alfred est déçu par un père fruste qui encourage plus l'entraînement de ses champions que les études de ses enfants. Il cherche, loin des sports paternels, d'autres sensations (...) et trouvera auprès de son nouvel amant le bagage culturel et le prestige intellectuel qui font défaut dans sa propre famille.
  Cet érotisme de tête (...) se nourrit d'une véritable fascination du cadet pour l'aîné, pour ses propôs non conformistes et son existence "libérée""...

   Vallet, Odon. L'affaire Oscar Wilde. Paris: Gallimard, 1997,  47 - 48.
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quarta-feira, 24 de junho de 2015


  Et devant la cour de l'Old Bailey, le procureur ( solicitor ) général de la reine, sir Frank Lockwood, attaque violemment l'accusé. Il est certes là dans son rôle de représentant du ministère public mais semble oublier tout ce que son honneur familial doit à Oscar Wilde: c'est en effet le neveu par alliance du procureur, Maurice Schawbe, qui a conduit Wilde dans la maison de rendez-vous où il a pu consommer les actes qui lui sont reprochés. Le poète a eu la délicatesse de n'en rien dire au procès mais l'oncle sévère ne lui en a pas été reconnaissant. (...).
  Le magistrat le plus équitable est, sans doute, le président Charles qui, lors du second procès à l'Old Bailey, fait preuve d'une remarquable objectivité et tient la balance égale entre la defense et l'accusation (...).
  Dans le cas d'Oscar Wilde, la séverité est au rendez-vous. Le troisième procès devant l'Old Bailey est présidé par sir Alfred Wills qui declare à l'ècrivain: "Votre cause est la plus vile que j'aie jamais eu à juger." Ce magistrat solennel, ancien président du Club alpin anglais, est un amateur d'alpinisme (...). Appréciant la compagnie virile des guides "vifs et musculeux" d'une "indéfinissable sauvagerie", sir Alfred n'apprécie guère le milieu efféminé dans lequel évolue Oscar Wilde...

 Vallet, Odon. L'affaire Oscar Wilde. Paris: Gallimard, 1997, pp 84 - 86.
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segunda-feira, 22 de junho de 2015


  Odon Vallet (Paris, 1947 -      ) publica, em 1995 na Albin Michel, a sua visão de "o assunto Óscar Wilde". Licenciado em Ciência Política e com dois doutoramentos: um em Direito e outro em Ciência das Religiões, a sua abordagem deste assunto afasta-se das tradicionais histórias do desgraçadinho, do perverso e/ou do génio incompreendido. Vallet disseca o tema partindo de três traves mestras: o contexto jurídico e político, a questão moral e religiosa e os aspetos psicológicos de todos os intervenientes. No primeiro aspeto, Vallet clarifica o facto de Wilde ter sido apanhado nas malhas de uma lei, aprovada até pela esquerda parlamentar, mas cujo objetivo inicial era bem distinto e de ter sido apanhado igualmente pela embaraçosa relação do então Primeiro Ministro, Lord Rosebery, com o irmão mais velho de Lord Alfred. O ódio do 10º Marquês de Queensbury relativamente a certos comportamentos estava, pois, mais do que justificado e era até conhecido de Wilde, que, mesmo assim se pôs a jeito, avançando com uma ação criminal por difamação contra Queensbury. As semelhanças e as diferenças quanto aos ideais de masculinidade entre Wilde e o seu rival, são neste livro analisadas com minúcia: Queensbury, prezando pouco as mulheres (???), usava-as... espancava mesmo a própria marquesa, que, por fim, teve de se afastar dele, ele preferia gastar todo o seu dinheiro com prostitutas e com os seus lutadores de boxe (???), um dos quais acompanhava-o sempre, até nas suas dispendiosas viagens ao estrangeiro, portanto, mesmo sabendo que estava perante uma masculinidade perturbada e homofóbica, mesmo assim Wilde nunca deixa de se pôr a jeito para o que lhe viria a acontecer. Para além de tudo isto, Vallet clarifica ainda os aspetos provenientes de raízes religiosas distintas: um Wilde vindo de uma Irlanda católica e um Queensbury rigidamente protestante.
  Este livro apresenta ainda um suporte documental bastante interessante.
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domingo, 21 de junho de 2015

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  Sinto-me subitamente ferida, agastada. Não seria assim tão subitamente... Mas, enfim, uma bagatela, uma pinga a mais no vaso cheio fá-lo transbordar: dá corpo e força às minhas velhas fantasias de revolta...
  Mas a minha revolta é calma, calada, fica só comigo. Entretenho-me com pensamentos mais crus e concretos que os meus habituais, quase sempre flutuantes e desinteressados. Mais nada. Mas aos poucos sereno.
  Não, ninguém me quis molestar! Todo o meu mal é apenas de situação, um mal de acaso. É um mal sem consciência, o mal da miséria; absolutamente incerto, inocente e irresponsável. E por tudo isto vou readquirindo o meu ar distraído e indiferente. Filosófico.
  Mas a minha indiferença, fruto de uma vida anormal, desaproveitada, não consegue amortecer de todo uma certa curiosidade, um distractivo apetite de me confundir com os que me cercam, e de os julgar. Não consegue!
  E assim, vegetando tranquilamente quase a um canto, pressinto ou noto que todas as criaturas se encobrem e se defendem das suas próximas! Que nós, afinal, somos como as coisas ou como os detritos do mar: chocamo-nos e apartamo-nos continuamente, vivemos num puro, permanente jogo de escondias...
  Cada ser que vive é um mistério! A sua rota é obscura e sinuosa, sempre complicada...

  Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume II - Solidão. Lisboa: Editorial Presença, 1992, p 150.
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sábado, 20 de junho de 2015



     Tive de esclarecer a amável estranheza de Q. sobre o meu gosto de não ser conhecida.
     Gosto e utilidade!
     Mas não esclareci nada.
     Tratava-se de atitudes literárias.
  Escrever assim como escrevo, sem qualquer ambição de notoriedade, parece-me extraordinariamente útil. Mas não o sei pôr em linguagem clara! Por isso me embrulhei em evasivas. Desnorteei Q., que com a sua galantaria de lisboeta e de letrado, uma galanteria muito especial, me convidava a aparecer. Não sei onde, nem como.
    Eu suponho, em boa verdade, que os anonimatos, que a folga e a inteligência dos anonimatos, se não podem definir bem. Que por si se justificam. Um anonimato é vital e elementar, espontaneamente útil; cobre as necessidades de cada um que o usa, esporádicas ou permanentes. Mas há quem tome o anonimato dos artistas por uma espécie de tarrafias, de gracinhas, de jogo ou de vaidade... E sê-lo-á!
    A mim, porém, qualquer coisa mais grave e mais indeterminada me tem levado a adoptar o anonimato, os pseudónimos. Talvez um subtil espírito utilitário, de defesa. De inversão da arrogância, da combatividade, também. De timidez, ou de fuga à necessidade intelectual, ainda... Não posso precisar perfeitamente o que seja! (...)
     Que significa um nome de autor? Nada! (...)
   A literatura teve sempre muito de aberrativa, de fantasista. Nomes, pseudónimos, têm absolutamente o mesmo valor das figuras e das localidades. Não valorizam as obras.
    E sendo a minha análise sempre tão cingida ao passageiro, sendo uma espécie de exploração da rápida eventualidade, não poderá admitir com sofrível elegância, com propriedade, a variedade dos pseudónimos?
   Este meu escrever sobre nadas , creio que até me chega a dar uma absoluta indiferença pelas categorias literárias! Me desinteressa de todo o rang e classe... Me inquina cada vez mais de uma corajosa e perversa paixão de liberdade
    Os pseudónimos não me encobrem dos profissionais das letras, naturalmente!
    Mas o mundo deles não é o meu...
   O meu, o que por mim se interessa, com boa ou ruim humanidade, não é de letrados nem de artistas, nem sequer de gente de boa sociedade. É de gente de letras grossas! Grosseira, talvez, mas nem melhor nem pior que a outra.
(...)
   Devo ser prudente. Com a minha gente é que me tenho sempre encontrado, dela é que eu sou um ruim e claudicante membro, mas ainda assim, não desprezado... Esquecê-lo, seria ingratidão.


  Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume II - Solidão. Lisboa: Editorial Presença, 1992, pp 89 - 90.
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quarta-feira, 17 de junho de 2015



O PRÉMIO CAMÕES de 2015 foi atribuído a HÉLIA CORREIA. A notícia foi divulgada hoje, 4ª feira, no Rio de Janeiro. Este Prémio, no valor de 100 mil euros, foi concedido por unanimidade por um júri formado por: Rita Marnoto, Inocência Mata, Pedro Mexia, Affonso Romano de Sant'Anna, Antonio Carlos Secchin e Mia Couto. O Prémio Camões foi instituído em 1989 por Portugal e pelo Brasil com o fim de reconhecer autores " cuja obra contribua para a projeção e reconhecimento da literatura de língua portuguesa em todo o mundo."
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sábado, 13 de junho de 2015



   O meu desconsolo parece-me, às vezes, não ter fundamento nem valor ao pé do da I. Acho-a sem resistência, desorientada! E a sua confusão perturba-me. É absurdo o seu desejo de vingança; uma saída impraticável da sua má vida. Vingar-se, mas de quem ou de quê? De si própria?
   O que sentimos e a que chamamos mal, de onde nos vem? Penso frequentemente que de nós próprios. Da nossa inconsciência ou fraqueza, da insuficiente oposição que fazemos aos outros, aos nossos exploradores, do nosso pouco tacto e arte de premeditação, etc. Mas também penso que os próprios fortes são vencidos, que também são desmoralizados... O acaso rege francamente as vidas? É provável! (...)
   Hoje é quinta-feira. Um dia qualquer...
   Mas tenho ainda viva em mim uma simples hora do dia de ontem. Passageira.
   Começava a escurecer. Ia pelo corredor e encostei-me à ombreira da porta. E tive vontade de dizer: (mas a quem? nem sequer o sabia!). Vê, olha comigo... deixa-me descansar em ti este espírito e este corpo mole...
   Uma mulher deve naturalmente nascer e morrer a dizer destas coisas, em mente, até se cansar...
   Encostada ali àquela porta, que estava eu, sem querer, figurando? A eterna insegurança, o eterno desejo.
   A vida corria, desdobrava-se, dava sinais de si por lugares que eu desconhecia, em que não tinha acolhida... Escapava-se-me, como sempre.
   Se eu pudesse explicar bem os meus apetites... que quereria naquele momento? Nada! Creio que nada. Como tantas vezes, tinha vontade de chorar, de me cansar, sobretudo.
   Aquelas luzes da cidade a acender-se, a acompanhar-me... friamente, elegantemente!
   E eu, uma mulher, um ser íntegro, vivo, encostada para ali à ombreira de uma porta! Longe de mim todas as correspondências. Longe, ou impossíveis!  


  Lisboa, Irene. Obras de Irene Lisboa, Volume II - Solidão. Lisboa: Editorial Presença, 1992, pp 41 - 42.
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quarta-feira, 10 de junho de 2015

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      " Zonas de risco "

É de uma voz,
não dos sonoros sons, nem dos silêncios,
esses que vivem presos
às palavras

É de uma voz em haste ou
pena de pavão, os pontos circulares
e desenhados, olhos de pura
seda e ao canto: lençol, tela,
um pano de navio

É de uma voz
aberta em leque impuro,
uma sombra chinesa
rasgando a cal mais pura
da parede

É de um abismo cheio a luz
que falo

como estar dentro
de um vórtice
de mar

as velas a bater
livres
sem rumo ___


 Amaral, Ana Luísa. E todavia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, pp 83 - 84.
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terça-feira, 9 de junho de 2015





  " Borboletas de noite "


Rasgou-se a solidão e o
meu conforto:
nesta mesa, sou musa
de mim mesma


Ao desejar
sombrias borboletas,
marquei o meu
destino


Brecha a partir
de sempre,
mais funda e persistente
que faca de cozinha


ou espada


Frincha de frio,
porta nem de ninguém:


fechada


  Amaral, Ana Luísa. E todavia. Lisboa, Assírio & Alvim, 2015, p 58.
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sábado, 6 de junho de 2015



  "  Deste-me a um rio "


Deste-me a um rio e eu me fiz águia
para trefegar sobre o fluxo.
Córrego fui. Amálgama.
Compêndio onde a flor descansou
o ocaso.


Dormi em ti
provei do fruto
condenei o futuro a custo de uma verdade.


Em tuas américas cresci
- e mesmo sendo uno -
morei entre dois continentes:
palavras.


  Silvério, Diego Nogueira. acervo de pássaros em desuso. Fortaleza:  Projeto gráfico/ Editoração e Diagramação, 2015, p 50.
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