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A Linha do Tempo, Vieira da Silva.
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quarta-feira, 20 de junho de 2018
domingo, 17 de junho de 2018
Voltaste
Vejo, Senhor, que não me abandonaste.
Tenho vivido distraído e alheio
como um helianto a descair da haste,
mesmo quando sopeso o cálix cheio.
Oh! vida impessoal e sem diálogo,
chupando o fumo à trela com qualquer,
mirando as coisas como num catálogo
na saga dum perfume de mulher.
Mas hoje de novo à porta me bateste.
Há brasas sob as cinzas da fogueira
à espera da chama que acendeste
e eu por medo e cómodo apaguei.
Não sou o que viste a vez primeira.
Dar-me-ás de novo teu amor de Rei?
Enes, José. Obra Poética. Ponta Delgada: Letras Lavadas edições, 2018, p 137.
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sábado, 16 de junho de 2018
A Meio caminho
Quando à noite insomne saboreio
o amargor mortal dos meus limites,
por mim todo se estende o receio
do destino que sem eu saber me dites.
Aonde eu via meus dias já em meio
da estrada possível? Que me fites
vendo eu só que me vês; que em cheio
me toques de presença; que me grites
um eco mais fundo mais fundo de mim?
E eu não te saiba senão presença nua
sem figura, sem palavra, sem fim;
é como se eu fosse um cão lançado à rua
e sentisses saudades de um jardim
onde houvesse um rosto a amar ao sol e à lua!
Enes, José. Obra Poética. Ponta Delgada: Letras Lavadas edições, 2018, p 90.
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sexta-feira, 15 de junho de 2018
seguras a memória por entre os dedos
para que nada se dissipe quando
demoradamente vens destapar-me a
boca-metáfora que diz todos os nomes
ardendo dentro contra a coisa extinta
o quintal dançando com o chão
levando em direcção aos frutos
enquanto já nada se levanta nem canta
depois um besouro misteriosamente
escondido no caderno onde
tropeço sobre o teu nome
retinindo na jugular
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Pedro, Mbate in "a gravata preta do corvo albino". Os crimes montanhosos. Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, p 63.
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quinta-feira, 14 de junho de 2018
Duas Canções
1
Dar ar novo ao que velho parecia:
a plástica do amor. Ciciada ocupação,
mormente a que faz da minha pele
o teu estendal, com as tuas camisas
ao vento, e a que se enleia na tua juba
cor de corvo, que me ata os olhos ao acaso
e à disciplina, dado um novo ritmo
à respiração do madala.
Issch! Só pode chorar a cabeça
do velho quando te vê, macua duma figa!
Assim me pegou o amor,
de fora para dentro, e eis-me no Índico
- planalto de flamingos e desassossegados
lírios brancos engastados em rostos
de ébano. Agradeço ao deus,
em quem descreio, o descomposto,
e também ao amor
que sigilosamente me fortalece,
porque nem suposto existe o dentro
sem o fora. Issch! Só pode chorar
a cabeça do velho
quando te vê, macua duna figa!
2
Foi sempre o meu oposto.
Por isso em tudo me imita.
Peço-lhe que não, Digo-lhe
"o meu amor é incomparavel-
mente maior que o meu passado."
E ela que tem postigos para tudo
abre-me o postigo dos seios
abre-me o postigo dos ombros
abre-me o postigo do umbigo
abre-me o postigo dos lábios
abre-me portão do púbis...- perdão!
Fui sempre o seu oposto.
Por isso tenho chaves
até para o que se não espera.
Nesta rua sem perspectivas,
o seguinte jogo é que mantém
vivas as nossas tochas:
enfraquecida a chuva
roçamos um no outro
em carne viva até
adormecermos o atrito.
Ela quer dizer-me "o meu amor
é incomparavelmente maior
que o meu passado",
mas eu não deixo e mordo-lho
a orelha - sangra.
Cabrita, António. in "o branco colarinho dos corvos". Os crimes montanhosos. Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, pp 42-44.
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quarta-feira, 13 de junho de 2018
Pastagem com homens dentro
Os pastores são os depositários plenos dos planos de viagem,
adormecem a dor medem amarrados à estaca entre a erva e o esterco.
Eles abrem a manhã no estertor dos guizos
e dos chocalhos essa a única música a rasgar o deserto
de bosta que desce até ao mar mastigam com dentes de fome
a fome que cresce nas pastagens besuntam-se na humidade
que se desprende dos pastos e das palavras empestadas
e empastadas de mágoa e névoa: por elas
ou dentro delas se desemboca nas docas e canarias de San Diego
nos estaleiros navais de San Diego dentro delas o corpo
se depreda nos prados da Califórnia.
Com navalhas por dentro e navios nos olhos eles assinam
assim o ponto no dorso da ilha e cavalgam as aves as nuvens
com elas fogem para oeste à frente da fome e do frio. Deste modo
pervertem as distâncias e investem os sonhos amealhados
no desespero de causa com que se espetam nas cabras
e nos cabritos.
Bettencourt, Urbano. outros nomes outras guerras. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2013, p 12.
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terça-feira, 12 de junho de 2018
Os drogados
Cemitério dos Remédios, Inverno de noventa e seis.
Ela assobia a um cão que desaparece entre as flores secas.
Um campo de seringas e jornais estende-se à tua frente
até à linha do nevoeiro,
destroços
de uma batalha para sempre adiada.
Continuas a fitar os vultos que atravessam em silêncio a gradaria
coberta por uma lâmina de ferrugem.
Foi quando descobriste que as crianças
habitam
uma espécie de pesadelo contínuo.
São os rostos da cegueira.
As ervas estalam nos olhos de uma gárgula
e tu dizes tenho frio, não vês
que estes mortos nos vigiam.
Mas é pela mão dela que vais contornando os labirintos
entaipados,
que então dariam
- hoje não -
para algum lado.
São os poços invadidos pelos drogados.
Olhas o seu rosto, o olhar humedecido.
Repetes tenho sede, deve haver
um caminho para voltar.
Ela nunca te dirá uma palavra.
Há um cão
morto que fareja as mãos dela.
Miguel Filipe Mochila in Tempo da impaciência. Lisboa: Artefacto, 2016, pp 57-58.
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domingo, 3 de junho de 2018
Distância, Bibelôs, Páginas Brancas
Não é só já a casa que responde
exacta e banal com um silêncio sobre tudo,
no quarto em que ela se deitava sobre as coxas
na falda onde abrigava um gato mudo.
Também as coisas se desprendem ininterruptas
da pedante condição de utensílios:
são os postais diários de um futuro
onde toda a noite é consumível.
Não é só já a casa que em silêncio te devolve
distância, bibelôs, páginas brancas.
Na própria malha há da madrugada
correntes de ar, camas abertas, provas, nada.
Mochila, Miguel Filipe. Tempo da impaciência. Lisboa: Artefacto, 2016, p 44.
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sexta-feira, 1 de junho de 2018
*
Queria um portão de aço colorido, mas já não sei onde guardei as aguarelas. De resto, já devem ter secado com o tempo e os azuis são trémulos e baços.
Como se fosse possível pintar a ferrugem das grades sobre os lagos de onde partiram as aves.
Queria regressar ao meu país e ver os jogos coloridos numa qualquer sport tv que engane os sábados onde se esconde a alma de um músico maior.
*
(...)
*
O deserto sobe a rua, pedaços de sol incendeiam a pregação dos sábios que só levam a palavra a quem habita a areia.
Muitos desistiram da procura de caminhos para a terra prometida, tal a força do vento e do atrito.
Na rua onde moro faltam as pedras necessárias para a manhã subsistir.
Bastava-me um café, um copo de água para enganar a luz.
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Ferra, António. AlterCações Climáticas. S/c.: S/ Editª, 2018.
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quarta-feira, 30 de maio de 2018
terça-feira, 29 de maio de 2018
Fernando Pessoa: Tópicos e Deambulações
Índice:
1.- A Tematização da Loucura
1.1. - Obsessão da loucura
1.2. - O problema do fingimento
1.3. - Libertação do medo da loucura
1.4. - O mistério do mundo
1.5. - Loucura e heterónimos
2. - Heterónimos e sua caracterização
2.1. - Alberto Caeiro
2.2. - Ricardo Reis
2.3. - Fernando Pessoa: poesia ortónima
2.4. - Álvaro de Campos.
3. - Os motivos centrais nos vários autores
4. - A criação heterónima: surgimento e processo.
1. - A tematização da loucura
As primeiras formulações acerca da psicopatologia de profetas, santos, poetas, filósofos, etc datam já de 450 A.C., podemos encontrá-las, por exemplo, em Eurípides e Demócrito. Também Platão no Fedro diz-nos: " (...) quem quiser chegar à poesia sem o delírio das musas, pensando aprender a arte poética sem ele, estaria errado...". Segundo Séneca, Aristóteles teria dito: "(...) nenhum grande engenho sem uma parte de insânia...". No século XVII vemos Pascal comentar: "L'extrême esprit est voisin de l'extrême folie" e, mais tarde, Diderot avançaria: "Hélas! que le génie et la folie se touchent donc de près!"
Ora, em 1863 publica-se a 1ª Edição da obra de Cesare Lombroso "Genio e Follia", que se logo se transforma em fundamento das investigações sobre a genialidade; a sua tese é: Todos os Génios são de qualquer forma Loucos ou Degenerados Este psiquiatra italiano chega ao ponto de dizer que especialmente favorável para a produção artística seria uma boa psicose, pois reduz fortemente a Razão e liberta a Fantasia, assim teríamos:
O génio psicótico caracterizado por: desassossego interior, contradições internas, consciência exagerada do valor próprio, energia enfermiça, originalidade.
A discussão em torno das teses de Lombroso estende-se pelos últimos decénios do século XIX até 1910. Quando Fernando Pessoa volta, em 1905, a Lisboa, com 17 anos de idade, deve ter conhecido esta discussão, pois numa carta a Cortes-Rodrigues acusa a influência de um dos adversários de Lombroso, o psiquiatra austríaco Max Nordau, embora tudo indique que a leitura de Nordau teria sido já numa fase final. Diga-se que Fernando Pessoa sabia-se altamente dotado, senão mesmo genial, we notou na sua personalidade todas as particularidades inquietantes mencionadas por Lombroso como típicas do génio, incluindo certas características de degneração como por exemplo a falta de vontade.
1.1. - Obsessão da loucura
Alexander Search, o primeiro heterónimo de Fernando Pessoa (ou antes pseudónimo?) começa a sua atividade em 1903 e estende-se até 1909 e aí a obessão da loucura manifesta-se particularmente em 1907 e 1908. Entre as suas 115 poesias vemos que o jovem poeta estava profundamente obcecado pelo medo da loucura. Veja-se um artigo datado de 30/10/1908 de Páginas íntimas e de auto-interpretaçaão : "Uma das minhas complicações mentais - mais horrível do que as palavras podem exprimir - é o medo da loucura, o qual, em si, já é loucura." Notamos aqui a marca de uma mentalidade fim-de-século, influenciada pelos poetas decadentes, entre os quais o francês Rollinat. Alexander Search lamenta então os males característicos desse fim-de-século:
a) predominância da inteligência sobre a vontade
b) incapacidade de agor
c) isolamento extremo dentro da sociedade
d) sofrimento pelas complicações do próprio caráter.
1.2. - O problema do fingimento
O amigo com o qual Alexander Search dialoga levanta nele o problema do fingimento, acusando-o de escrever de maneira fingida, censura que antecipa o poema Autopsicografia : o amigo considera as lamentações do poeta como fictícias e inautênticas, mas Search explica o deprimente da sua produção pela sua loucura, ou seja, pela consciência da sua loucura.
O problema da loucura anda, pois, a par com a questão da readaptação de Fernando Pessoa depois do seu regresso da África do Sul. Eis o excerto de um poema de 1907:
Nunca senti tão fundo o que da humanidade me exclui e afasta
... ... ...
Nunca senti tão fundo o abismo entre os homens e mim.
É idiotia, loucura ou crime, ou génio - ou quê, esta dor sem fim?
... ... ...
Canção toda mistério, símbolos, contradições em ignóbil dança,
Mas não se ignore em nada que isto é loucura sem esperança
O medo de perder a razão foi, portanto, muito forte no jovem Fernando Pessoa, veja-se uma quadra de um soneto de 28/3/1909:
Com severos passos arrastados, como o ódio rastejante,
Atrás do negro silêncio do meu cérebro consciente,
Ouço a loucura avançando, e sinto com dor
A terra que ela calca torcer-se e palpitar
1.3. - Libertação do medo da loucura
Por volta de 1910 deve ter havido uma libertação destas obsessões, como ele diz numa carta a Cortes-Rodriges: "varrido do espírito pela leitura de Max Nordau e pela ginástica sueca". Para Nordau, o génio deixa de ser esse degenerado-motor-da-humanidade como Lombroso defendia e passa a ser algo de saudável: os modernos, esses sim são degenerados, por isso são tudo menos génios e as suas obras condenáveis. Fernando Pessoa reage, por conseguinte, à mentalidade fim-de-século e o resultado desse esforço são os Heterónimos , após a criação destes o poeta passa a definir-se como histero-neurasténico, contudo, a loucura enquanto tema ir-se-á manter.
1.4. - O mistério do mundo
O horror perante o mistério do Todo é o tema número um da peça Fausto de Fernando Pessoa:
O sentido do mistério do todo,
Quando fulgura em mim em cheio quanto pode ser,
Aterra a minh'alma enlouquecida
Este Fausto não é mais do que a luta entre a Inteligência e a Vida, a primeira é representada por Fausto, a segunda conforme as circunstâncias. Toda a peça é atravessada por vocábulos como: vácuo, frieza, gelar, horror, pavor. Nesta peça, como já sucedia em Search, há a separação entre os felizes, ou seja, os homens normais, e o génio, aqui personificado pelo próprio Fausto, e o tema da loucura surge como consequência do encontro com a realidade e ligada aos grandes representantes da humanidade. Por conseguinte, a loucura passa agora a ser (aqui) valorizada positivamente, como fonte de empreendimentos sobre-humanos.
O horror perante o mistério do Todo é o tema número um da peça Fausto de Fernando Pessoa:
O sentido do mistério do todo,
Quando fulgura em mim em cheio quanto pode ser,
Aterra a minh'alma enlouquecida
Este Fausto não é mais do que a luta entre a Inteligência e a Vida, a primeira é representada por Fausto, a segunda conforme as circunstâncias. Toda a peça é atravessada por vocábulos como: vácuo, frieza, gelar, horror, pavor. Nesta peça, como já sucedia em Search, há a separação entre os felizes, ou seja, os homens normais, e o génio, aqui personificado pelo próprio Fausto, e o tema da loucura surge como consequência do encontro com a realidade e ligada aos grandes representantes da humanidade. Por conseguinte, a loucura passa agora a ser (aqui) valorizada positivamente, como fonte de empreendimentos sobre-humanos.
1.5. - Loucura e heterónimos
Álvaro de Campos, mestre do sensacionismo, trata o tema da loucura de forma exibicionista: na ode Passagem das horas (1916) a fúria de "sentir tudo de todas as maneiras" confina com os limites dessa mesma loucura, e Campos passa mesmo a brincar com ela. Vemos, portanto, que estamos já bem distantes das preocupações de Search!:
Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça
A loucura, como vemos, é aqui saudada alegremente e consola-o da náusea frente aos seus empreendimentos.
Também Fernando Pessoa, ele-mesmo, na Mensagem, apresenta os heróis como exemplo dessa loucura virada para o futuro:
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
... ... ... ...
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
2. - Heterónimos e sua caracterização
2.1. - Alberto Caeiro
poeta e pensador que, teoricamente, em poesia se desdobra, vive de impressões visuais e em cada uma goza o seu conteúdo original, logo, há sempre em Caeiro uma sobrevalorização da diferença:
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes tinha visto
Ele não quer saber da realidade dos números e não quer saber de passado nem de futuro: recordar é atraiçoar a natureza. É um poeta do real objetivo e os seus pensamentos são só sensações. Vive feliz como os rios e as plantas. O seu misticismo leva-o a desejar dispersar-se e transformar-se num rebanho:
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo.
Caeiro é um lírico espontâneo, instintivo e inculto. O seu vocabulário é pobre, predominantemente obstrato, incolor, discursivo, mas o pensador suplanta o poeta, veja-se a questão do Nominalismo :
Um renque de árvores lá longe, lá longe para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.
Concluímos, portanto, que Alberto Caeiro não é o pensador ingénuo que Fernando Pessoa e Álvaro de Campos tanto apregoam.
2.2. - Ricardo Reis
é monárquico, educado num colégio de jesuítas, latinista e semi-helenista, amante do exato. Como Caeiro, aconselha a aceitar a ordem das coisas e são ambos indiferentes ao social, convencidos de que a sabedoria está em gozar a vida pensando o menos possível. Enquanto Caeiro defende uma verdade absoluta que é o primado do exterior, a variedade do real, Reis tenta conquistar o prazer relativo e, sempre triste por saber que o é, apenas lhe resta iludir a dor com tintas de estoicismo (Horácio é o seu autor de cabeceira!), Reis acaba por nos propor, portanto, uma orientação epicurista, um duror esforço de auto-disciplina, a submissão a um destino involuntário.
2.3. - Fernando Pessoa
Ao contrário de Caeiro e Reis, Pessoa não tem uma filosofia prática, nele há só a expressão musical do frio, do tédio e dos anseios da alma; sofre a vida, sendo incapaz de a viver; oscila entre o ocultismo e o "tudo é sonho e aparência". Nesta poesia ortónima poder-se-ão encontrar duas vertentes: a modernista (1913-1917) com acentos de simbolismo, de interseccionismo impressionista, de paulismo e a segunda vertente que será a maneira típica do próprio Pessoa - exemplo: O sino da minha aldeia. aqui temos poemas, quase todos em verso curto, com a finura dos motivos e a descrição clássica daqueles recursos que são característicos de toda a poesia ortónima.
2.4. - Álvaro de Campos
Poeta sensacionista e por vezes escandaloso é dos três heterónimos aquele que msi percorre uma curva evolutiva: 1º Opiário, fase da decadência; 2º Futurismo Whitmaniano, amor ao ar livre e ao belo feroz que condena a literatura decadente; 3º Pessoal, é o pota do cansaço, nauseado, da abulia, do vazio, inquieto.
3. - Os motivos centrais nos vários autores
a) "Tudo é ilusão":
Fernando Pessoa . frente ao mundo: é absurdo, não pode ser!
Alberto Cairo: o mundo fenoménico apresenta-se também como estranho, nada há por detrás dele a dar-lhe sentido;
Álvaro de Campos: tenta fugir pela vertigem das sensações.
b) "Ser e conhecer-se":
Alberto Caeiro: goza a mudança das coisas;
Fernando Pessoa: recordar não é reviver, mas verificar com dor que fomos outra coisa impossível de recuperar;
Álvaro de Campos: somos só o que queríamos ser, ou antes, o intervalo entre o que queríamos e o que realmente somos;
c) "A dor de pensar"
d) "Os momentos inefáveis":
Em Alberto Caeiro, o seu positivismo não evita o regresso das vozes misteriosas, enquanto Fernando Pessoa se lamenta por não ser calmo como o mestre, porque assim tem sempre a preocupação de sonhos e memórias.
e) "Melancolia e Destino"
f)
Fernando Pessoa:
- Aristocratismo:
"E a glória do meu Rei (Deus) dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido..."
- Beleza:
"Se em mim houvesse certeza
Não seria o fluido neutro
Que ama a beleza"
- Cansaço
- Corpo:
"O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo"
- Cultura:
"Livros são papeis pintados com tinta"
- Divindade (Pessoa é sempre manipulado por um Deus oculto)
- Felicidade: é sempre do outro
- Mistério:
"Grandes mistérios habitam
o limiar do meu ser"
- Pensamento/Sensibilidade:
"Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?"
ou:
"Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando"
ou ainda:
"Que importa se sentir
É não se conhecer?"
- Ser e Nada:
"Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser"
g)
Alberto Caeiro
- Aristocratismo:
"Ontem à tarde um homem das cidades/(...)/ Falava da justiça e da luta para haver justiça" etc., etc.
- Beleza:
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia" (Mas o ria da aldeia acaba sendo mais livre, porque não faz pensar em nada!)
- Corpo:
"Que perfeito que é nele o que ele é - o seu corpo,"
...
"Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono casa branca
Creio mais no meu corpo do que na minha alma"
- Divindade:
"Não acredito em Deus porque nunca o vi"
- Felicidade:
"Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se"
ou:
"Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros"
- Filosofia:
"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... "
- Mistério:
"O único mistério é haver quem pense no mistério"
ou:
"Os poetas místicos são filósofos doentes
E os filósofos são homens doidos"
- Pensamento/Sensibilidade:
"Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender..."
- Ser e parecer:
" O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?"
h)
Álvaro de Campos
-Aristocratismo:
"Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importa-me com a humanidade!"
-Beleza:
"Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações"
ou:
"Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime
Ser completo como uma máquina"
-Corpo:
"E todo o nossos corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma"
Felicidade: sempre ligada ao outro (também).
Imaginação: é muito importante em Álvaro de Campos!
-Metafísica:
"Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos"
-Mistério:
"Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?"
ou:
"Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade"
-A noite (como veículo de universalização e indiferenciação):
"funde num campo teu todos os campos que vejo"
ou:
"Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito"
-Pensamento/Sensibilidade:
"O cansaço de pensar
faz-me velho..."
ou:
"(...) mais vale ser criança que querer compreender o mundo"
-Ser e Perecer:
"Quem era? Ora, quem eu via"
- Sociedade (organizada):
"Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida"
ou:
"Deixai-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho.
Não se pode ter muita energia com a civilização à roda do pescoço"
i)
Ricardo Reis
- Beleza:
"pela calma das flores deixadas num colo, num momento suave".
É externa e dada:
"(...) repetida
Em meus passivos olhos,
Lagos que a morte seca."
Ainda a calma e viver a vida num só minuto:
"senta-te ao sol. Abdica.
E sê rei de ti próprio."
- Destino:
"Como acima dos deuses o Destino
É calmo e inexorável"
- Divindades:
Cristo é tão-só um deus a mais
Não moram no Vago, mas nos campos e rios
São deuses que não se pensam a si próprios
Veem, no entanto, mais claro o que as coisas são
Talvez só por serem maiores que nós tirem o seu serem deuses
- Felicidade:
"Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem no húmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua".
- Filosofia:
Sobrevalorização de Epicuro em detrimento de Aristóteles (pp 28, 29, 62 na Edição da Ática)
- Imaginação:
"Nada se sabe, tudo se imagina"
- O Outro:
É pura e simplesmente ignorado - exº: o poema dos jogadores de xadrezz "Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa carne e osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
- Pensamento/ Sensibilidade:
"(...) não pensemos
E deixemo-nos crer"
- Verdade e Ciência:
"Acima da verdade estão os deuses"
e:
"A ciência nunca encontra.
E a vida passa e dói porque o conhece..."
4. - A criação heterónima
Pessoa não é explícito quanto ao nascimento dos heterónimos:
primeiro, garante que é como médium que escreve sob o nome de Caeiro, Reis e Campo; contudo, garante por vezes o que há de artificioso e calculado nesta criação. Parece que a tendência para fingir lhe vieram bastante cedo, já com seis anos escrevia cartas a si mesmo sob o nome de Chevalier de Pas. Aso 24 anos surgiu-lhe a ideia de escrever poesia pagã (Ricardo Reis estava já em embrião!), ano e meio depois inventa um poeta bucólico (Alberto Caeiro) para pregar uma partida a Sá-Carneiro e, depois de vários dias sem o conseguir, no dia em que escreve a Ode Triunfal, abeira-se de uma cómoda alta e num pseudo-êxtase escreve de um jacto trinta e tantos poemas de Guardador de Rebanhos e logo a seguir tenta descobrir-lhe, conscientemente, os discípulos e é aqui que surge a Ode Triunfal sem uma única emenda. Ricardo Reis surge com a necessidade de criar uma oposição a Álvaro de Campos. Fernando Pessoa tenta sublinhar o carácter involuntário desta criação, mas uma vez nascidos ele tenta arranjar-lhes biografias, o que parece ontradizer que esta génese foi alheia ao arbítrio de Pessoa. Conclusão: Pessoa simulou o forjar dos heterónimos e simulou-o ironicamente na carta a Casais Monteiro. A questão põe-se de novo: desdobramento ou invenção de personalidades?
Várias vezes procurou convencer-nos, e talvez a ele próprio, de que era possível fazer poesia de fora para dentro, pondo a sensibilidade como trem de corda ao serviço da inteligência, mas, não teria havido uma colaboração consciente - e do subconsciente - sabiamente trabalhada pela inteligência? Fernando Pessoa acusa, portanto, duas explicações - contraditórias entre si - para o nascimento dos heterónimos: fatalismo e voluntarismo. Mas a despersonalização das criações heterónimas foi muito relativa, pois há um estrato de sinceridade dramática, não menos sincera só porque Pessoa lhe chama fingida, e uma camada mais superficial de autêntico fingimento. Os heterónimos seriam assim, tentativas de resposta prática, embora que imaginária, ao grave problema do existir: um ser dorido e desterrado num mundo imaginário - o seu drama é o impiedoso conflito entre a intuição do mistério e o impiedosos racionalismo. Quando por esse racionalismo o poeta se reencontra, do outro lado o eu é fluido, uma consciência virada para o exterior, ilusoriamente firme que passa, como tudo. Ei-lo em vão tentando desvendar o Mistério do Além, mas entregue apenas a esse tédio de vida que caracteriza os que penetram demasiado nas raízes abstratas das coisas.
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Álvaro de Campos, mestre do sensacionismo, trata o tema da loucura de forma exibicionista: na ode Passagem das horas (1916) a fúria de "sentir tudo de todas as maneiras" confina com os limites dessa mesma loucura, e Campos passa mesmo a brincar com ela. Vemos, portanto, que estamos já bem distantes das preocupações de Search!:
Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça
A loucura, como vemos, é aqui saudada alegremente e consola-o da náusea frente aos seus empreendimentos.
Também Fernando Pessoa, ele-mesmo, na Mensagem, apresenta os heróis como exemplo dessa loucura virada para o futuro:
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
... ... ... ...
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
2. - Heterónimos e sua caracterização
2.1. - Alberto Caeiro
poeta e pensador que, teoricamente, em poesia se desdobra, vive de impressões visuais e em cada uma goza o seu conteúdo original, logo, há sempre em Caeiro uma sobrevalorização da diferença:
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes tinha visto
Ele não quer saber da realidade dos números e não quer saber de passado nem de futuro: recordar é atraiçoar a natureza. É um poeta do real objetivo e os seus pensamentos são só sensações. Vive feliz como os rios e as plantas. O seu misticismo leva-o a desejar dispersar-se e transformar-se num rebanho:
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo.
Caeiro é um lírico espontâneo, instintivo e inculto. O seu vocabulário é pobre, predominantemente obstrato, incolor, discursivo, mas o pensador suplanta o poeta, veja-se a questão do Nominalismo :
Um renque de árvores lá longe, lá longe para a encosta.
Mas o que é um renque de árvores? Há árvores apenas.
Renque e o plural árvores não são coisas, são nomes.
Concluímos, portanto, que Alberto Caeiro não é o pensador ingénuo que Fernando Pessoa e Álvaro de Campos tanto apregoam.
2.2. - Ricardo Reis
é monárquico, educado num colégio de jesuítas, latinista e semi-helenista, amante do exato. Como Caeiro, aconselha a aceitar a ordem das coisas e são ambos indiferentes ao social, convencidos de que a sabedoria está em gozar a vida pensando o menos possível. Enquanto Caeiro defende uma verdade absoluta que é o primado do exterior, a variedade do real, Reis tenta conquistar o prazer relativo e, sempre triste por saber que o é, apenas lhe resta iludir a dor com tintas de estoicismo (Horácio é o seu autor de cabeceira!), Reis acaba por nos propor, portanto, uma orientação epicurista, um duror esforço de auto-disciplina, a submissão a um destino involuntário.
2.3. - Fernando Pessoa
Ao contrário de Caeiro e Reis, Pessoa não tem uma filosofia prática, nele há só a expressão musical do frio, do tédio e dos anseios da alma; sofre a vida, sendo incapaz de a viver; oscila entre o ocultismo e o "tudo é sonho e aparência". Nesta poesia ortónima poder-se-ão encontrar duas vertentes: a modernista (1913-1917) com acentos de simbolismo, de interseccionismo impressionista, de paulismo e a segunda vertente que será a maneira típica do próprio Pessoa - exemplo: O sino da minha aldeia. aqui temos poemas, quase todos em verso curto, com a finura dos motivos e a descrição clássica daqueles recursos que são característicos de toda a poesia ortónima.
2.4. - Álvaro de Campos
Poeta sensacionista e por vezes escandaloso é dos três heterónimos aquele que msi percorre uma curva evolutiva: 1º Opiário, fase da decadência; 2º Futurismo Whitmaniano, amor ao ar livre e ao belo feroz que condena a literatura decadente; 3º Pessoal, é o pota do cansaço, nauseado, da abulia, do vazio, inquieto.
3. - Os motivos centrais nos vários autores
a) "Tudo é ilusão":
Fernando Pessoa . frente ao mundo: é absurdo, não pode ser!
Alberto Cairo: o mundo fenoménico apresenta-se também como estranho, nada há por detrás dele a dar-lhe sentido;
Álvaro de Campos: tenta fugir pela vertigem das sensações.
b) "Ser e conhecer-se":
Alberto Caeiro: goza a mudança das coisas;
Fernando Pessoa: recordar não é reviver, mas verificar com dor que fomos outra coisa impossível de recuperar;
Álvaro de Campos: somos só o que queríamos ser, ou antes, o intervalo entre o que queríamos e o que realmente somos;
c) "A dor de pensar"
d) "Os momentos inefáveis":
Em Alberto Caeiro, o seu positivismo não evita o regresso das vozes misteriosas, enquanto Fernando Pessoa se lamenta por não ser calmo como o mestre, porque assim tem sempre a preocupação de sonhos e memórias.
e) "Melancolia e Destino"
f)
Fernando Pessoa:
- Aristocratismo:
"E a glória do meu Rei (Deus) dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido..."
- Beleza:
"Se em mim houvesse certeza
Não seria o fluido neutro
Que ama a beleza"
- Cansaço
- Corpo:
"O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo"
- Cultura:
"Livros são papeis pintados com tinta"
- Divindade (Pessoa é sempre manipulado por um Deus oculto)
- Felicidade: é sempre do outro
- Mistério:
"Grandes mistérios habitam
o limiar do meu ser"
- Pensamento/Sensibilidade:
"Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?"
ou:
"Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando"
ou ainda:
"Que importa se sentir
É não se conhecer?"
- Ser e Nada:
"Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser"
g)
Alberto Caeiro
- Aristocratismo:
"Ontem à tarde um homem das cidades/(...)/ Falava da justiça e da luta para haver justiça" etc., etc.
- Beleza:
"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia" (Mas o ria da aldeia acaba sendo mais livre, porque não faz pensar em nada!)
- Corpo:
"Que perfeito que é nele o que ele é - o seu corpo,"
...
"Estou mais certo da existência da minha casa branca
Do que da existência interior do dono casa branca
Creio mais no meu corpo do que na minha alma"
- Divindade:
"Não acredito em Deus porque nunca o vi"
- Felicidade:
"Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se"
ou:
"Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros"
- Filosofia:
"Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... "
- Mistério:
"O único mistério é haver quem pense no mistério"
ou:
"Os poetas místicos são filósofos doentes
E os filósofos são homens doidos"
- Pensamento/Sensibilidade:
"Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender..."
- Ser e parecer:
" O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?"
h)
Álvaro de Campos
-Aristocratismo:
"Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importa-me com a humanidade!"
-Beleza:
"Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações"
ou:
"Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime
Ser completo como uma máquina"
-Corpo:
"E todo o nossos corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma"
Felicidade: sempre ligada ao outro (também).
Imaginação: é muito importante em Álvaro de Campos!
-Metafísica:
"Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos"
-Mistério:
"Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?"
ou:
"Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade"
-A noite (como veículo de universalização e indiferenciação):
"funde num campo teu todos os campos que vejo"
ou:
"Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito"
-Pensamento/Sensibilidade:
"O cansaço de pensar
faz-me velho..."
ou:
"(...) mais vale ser criança que querer compreender o mundo"
-Ser e Perecer:
"Quem era? Ora, quem eu via"
- Sociedade (organizada):
"Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida"
ou:
"Deixai-me tirar a gravata e desabotoar o colarinho.
Não se pode ter muita energia com a civilização à roda do pescoço"
i)
Ricardo Reis
- Beleza:
"pela calma das flores deixadas num colo, num momento suave".
É externa e dada:
"(...) repetida
Em meus passivos olhos,
Lagos que a morte seca."
Ainda a calma e viver a vida num só minuto:
"senta-te ao sol. Abdica.
E sê rei de ti próprio."
- Destino:
"Como acima dos deuses o Destino
É calmo e inexorável"
- Divindades:
Cristo é tão-só um deus a mais
Não moram no Vago, mas nos campos e rios
São deuses que não se pensam a si próprios
Veem, no entanto, mais claro o que as coisas são
Talvez só por serem maiores que nós tirem o seu serem deuses
- Felicidade:
"Felizes, cujos corpos sob as árvores
Jazem no húmida terra,
Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem
Das doenças da lua".
- Filosofia:
Sobrevalorização de Epicuro em detrimento de Aristóteles (pp 28, 29, 62 na Edição da Ática)
- Imaginação:
"Nada se sabe, tudo se imagina"
- O Outro:
É pura e simplesmente ignorado - exº: o poema dos jogadores de xadrezz "Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa carne e osso
Das irmãs e das mães e das crianças?
- Pensamento/ Sensibilidade:
"(...) não pensemos
E deixemo-nos crer"
- Verdade e Ciência:
"Acima da verdade estão os deuses"
e:
"A ciência nunca encontra.
E a vida passa e dói porque o conhece..."
4. - A criação heterónima
Pessoa não é explícito quanto ao nascimento dos heterónimos:
primeiro, garante que é como médium que escreve sob o nome de Caeiro, Reis e Campo; contudo, garante por vezes o que há de artificioso e calculado nesta criação. Parece que a tendência para fingir lhe vieram bastante cedo, já com seis anos escrevia cartas a si mesmo sob o nome de Chevalier de Pas. Aso 24 anos surgiu-lhe a ideia de escrever poesia pagã (Ricardo Reis estava já em embrião!), ano e meio depois inventa um poeta bucólico (Alberto Caeiro) para pregar uma partida a Sá-Carneiro e, depois de vários dias sem o conseguir, no dia em que escreve a Ode Triunfal, abeira-se de uma cómoda alta e num pseudo-êxtase escreve de um jacto trinta e tantos poemas de Guardador de Rebanhos e logo a seguir tenta descobrir-lhe, conscientemente, os discípulos e é aqui que surge a Ode Triunfal sem uma única emenda. Ricardo Reis surge com a necessidade de criar uma oposição a Álvaro de Campos. Fernando Pessoa tenta sublinhar o carácter involuntário desta criação, mas uma vez nascidos ele tenta arranjar-lhes biografias, o que parece ontradizer que esta génese foi alheia ao arbítrio de Pessoa. Conclusão: Pessoa simulou o forjar dos heterónimos e simulou-o ironicamente na carta a Casais Monteiro. A questão põe-se de novo: desdobramento ou invenção de personalidades?
Várias vezes procurou convencer-nos, e talvez a ele próprio, de que era possível fazer poesia de fora para dentro, pondo a sensibilidade como trem de corda ao serviço da inteligência, mas, não teria havido uma colaboração consciente - e do subconsciente - sabiamente trabalhada pela inteligência? Fernando Pessoa acusa, portanto, duas explicações - contraditórias entre si - para o nascimento dos heterónimos: fatalismo e voluntarismo. Mas a despersonalização das criações heterónimas foi muito relativa, pois há um estrato de sinceridade dramática, não menos sincera só porque Pessoa lhe chama fingida, e uma camada mais superficial de autêntico fingimento. Os heterónimos seriam assim, tentativas de resposta prática, embora que imaginária, ao grave problema do existir: um ser dorido e desterrado num mundo imaginário - o seu drama é o impiedoso conflito entre a intuição do mistério e o impiedosos racionalismo. Quando por esse racionalismo o poeta se reencontra, do outro lado o eu é fluido, uma consciência virada para o exterior, ilusoriamente firme que passa, como tudo. Ei-lo em vão tentando desvendar o Mistério do Além, mas entregue apenas a esse tédio de vida que caracteriza os que penetram demasiado nas raízes abstratas das coisas.
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segunda-feira, 28 de maio de 2018
( Do trabalho que se segue, que irá ser integrado na rubrica respetiva, perderam-se já o título e as primeiras páginas, contudo, consegue-se perceber que é um texto sobre a Ética a Nicómaco ).
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(...) até proporções do dever: o justo meio é o que deve procurar, sendo o homem virtuoso aquele que serve de padrão a toda uma valoração para aqueles que se esforçam por conseguir esse tão ansiado meio sem o conseguir.
3.3. - A problemática da ação
3.3.1. - Deliberação e Escolha
Dentro da atividade virtuosa, não importa só o justo meio referido ao sujeito, mas igualmente toda uma forma específica de atuação do sujeito para com esse mesmo obeto.
A deliberação é, por assim dizer, a etapa que precede o ato voluntário que caracteriza a escolha, sendo, portanto, esta última sempre fundamentada na razão, deliberada e refletida. "Mas, acerca das entidades eternas não pode haver deliberação" ( In Aristote, Éthique a Nicomeque, p 133) , por exemplo, não se pode deliberar acerca da ordem do mundo, nem tão-pouco nas ciências exatas, já que estas também se nos impõem pelo seu caráter de necessidade, sendo assim, delibera-se unicamente sobre o frequente mas incerto, ou seja, sobre o possível mas contingnente.
Existem três fatores condicionantes da escolha e outros tantos orientando a respetiva repulsa:
Escolha - o bom, o útil, o agradável;
Repulsa - o árduo, o doloroso, o punível.
A escolha, elemento primordial da moralidade, surge da imbricação do desejo e do intelecto, acabando sempre na dominação do primeiro pelo segundo, isto, aliás, tem levado alguns comentadores a rotularem a moral aristotélica, um tanto pejorativamente, de intelectualista , "o princípio da ação moral, é assim a livre escolha (...) e o da escolha é o desejo e a regra em direção a um fim. É, por isso, que a escolha não pode existir..." (In Aristote, Op. cit. p 278) nem sem o intelecto, nem sem uma disposição moral.
A vida virtuosa é, por conseguinte, um fim para o qual tendem as nossas escolhas prudentemente elaboradas e, por sua vez, "a virtude moral assegura bem a retidão da escolha..." (In Aristote, Op. cit. p 309)
3.3.2. - A Prudência
A apreciação que em Aristóteles inspira as deliberações e as decisões é o que nós designamos por prudência .Não podendo ser aplicada ao domínio do necessário, a prudência não é nem uma ciência nem uma arte, é "(...) uma disposição, acompanhada de regra verdadeira, capaz de agir na esfera do que é bom ou mau para um ser humano" ( In Aristote, Op. cit. p 286), se, portanto, o que é bom e são difere de homem para homem, enquanto que o branco ou o retilíneo se mantém invariável, reconhece-se então que ser-se sábio só poderá ser de um modo único, enquanto que a designação de homem prudente é sempre variável (Cf. 3.2. onde se fala do relativismo referente ao justo meio ) .
A prudência relaciona-se com as coisas humanas e que são susceptíveis de deliberação, por conseguinte, o homem prudente tem por objetivo deliberar corretamente. Qual a relação da virtude moral com a prudência? Com efeito, aquela assegura a retidão do objetivo a alcançar, enquanto que a prudência nos facilita os meios para aí chegarmos. Aquele que delibera corretamente é o que se esforça sempre por atingir o melhor bem, que é, como já vimos a Felicidade.
4. - Felicidade e Contemplação
4.1. - Teorização da Felicidade
Antes de se concretizar a definição da Felicidade iniciada no Capítulo 2, façamos um breve balanço do que tem vindo a ser dito: indicaram-se algumas características da Felicidade, como sendo um Ben que se basta a si próprio, que é desejável apenas por si, que é complementado por um certo prazer e, acima de tudo, que se identifica com uma atividade concordante com uma virtude perfeita. Clarificámos seguidamente - ainda que de forma breve - alguns conceitos: virtude, ação, etc. crê-se, portanto, poder agora concluir o que se nos deparou acerca desta problemática.
Se, conforme se viu, a Felicidade se identificava, ou melhor: era fruto da virtude e que esta pode ser de pensamento (sujeita a ensinamento) e moral (produto de um certo hábito), vejamos ainda que tudo isto se encontra articulado com a constituição da alma humana:
Alma ............ parte racional: a que possui em si razão; a que não faz mais do que obedecer.
........... parte irracional: parte desejante (que participa já de um certo grau de razão); parte
vegetativa.
(Cf. Éthique a Nicomaque ,pp 83-86)
Estando a parte desejante sempre sujeita às admoestações da parte racional, é exatmente nesta última que, ao mais alto grau, se processa essa atividade que está mais conforme com o homem: a Contemplação!, à qual acede o sábio, ou seja, o homem virtuoso. É, portanto, a Contemplação (que não é uma mera disposição, mas uma atividade!) a tal atuação adequada à virtude do próprio homem, "pois parece que o intelecto constitui o próprio ser de cada homem, ou, pelo menos, a sua parte principal" (In Aristote, Op. cit. p 444), uma vida de acordo com essa parte privilegiada será necessariamente a mais nobre para o homem. Articulando esta teoria com o esquema da alma indicado, poderemos dizer com Aristóteles: "Mas se a Felicidade é uma atividade conforme à virtude, é racional que seja uma atividade conforme à mais alta virtude e esta, por sua vez, será a virtude da parte mais nobre de nós" (In Aristote, Op. cit p 508): o intelecto.
Mas, para conseguir esta Felicidade, tem o homem virtuoso ( o sábio) de se isolar do todo social? De se privar de amizades?
4.2. - Uma coadjuvante: a Amizade
Uma das questões mais polémicas na ética aristotélica é exatamente a virtude moral da amizade, dependente, evidentemente, de uma virtude de pensamento , é esta articulação que leva Aristóteles a um estudo sobre o amor próprio: Platão condenara-o como a causa da perversidade moral, mas este filósofo "(...) vê nele o verdadeiro princípio do altruísmo... " (esta citação refere-se à pagina 28 de uma obra de Leon Robin, mas, pelo que se disse no início deste estudo, não é possível saber ao certo que obra será!).
A amizade é agora, não só uma condição da Felicidade, mas até o próprio coroar de toda uma opção ética, aliás, "(...) pareceria estranho que atribuindo todos os bens ao homem feliz, se lhe negassem os amigos, cuja posse é, ordinariamente, considerada como o maior dos bens exteriores" (In Aristote, Op. cit. p 461).
A vida do homem feliz deve ser uma atividade simultaneamente contínua e agradável e, para tal, ele procurará estabelecer com os seus amigos um diálogo frutífero. Esta relação assemelha-se a um intercâmbio, mas... o sábio sendo feliz de nada mais precisa já, então, o amigo só pode ser uma espécie de um seu desdobramento, uma outra face de si. Quando o homem virtuoso proporciona o enriquecimento desse outro ele mesmo que é o seu amigo é a si que tem em vista, sendo o contrário igualmente verdadeiro. Vê-se, pois, que para o sábio egoísmo e altruísmo têm entre si uma relação dialógica, são duas faces de uma mesma medalha, e que a amizade verdadeira tem um caráter de necessidade para a conclusão da Felicidade, não podendo, no entanto, ser experimentada por quantos vivem sob o domínio da perversão, já que estes "(...) não tendo em si nada de amável, não têm nenhum sentimento de afeição por si mesmos" (In Atistote, Op. cit. p 446), mas só podendo ser vivida pelos homens virtuosos
4.3. - Por uma Ética comprometida
"Mas o sábio terá também necessidade de prosperidade exterior, pois é um homem" (In Aristote, Op. cit. p 519) e, como tal, precida de receber alimentos, que o seu corpo esteja de perfeita saúde, enfim, que muitas atividades concorram para sua Felicidade. Ora, isso só será possível em sociedade! É absurdo querer fazer "(...) do homem perfeitamente feliz um solitário (..:) porque (ele) é um ser político e naturalmente feito para viver em sociedade" (In Aristote, Op.cit. p 461), assim, devem concorrer para a Felicidade do homem virtuoso: os escravos, artesãos, comerciantes, camponeses e, de um modo geral, todos quantos para quem o problema da Felicidade não se põe, queremos dizer incluindo também as crianças e as mulheres.
A vida contemplativa é levada dentro da cidade antiga - estamos ainda longe da noção de sábio estóica - mas, no entanto, essa cidade ter-se-.á de pautar por fatores de dois tipos: uma atividade legislativa que incentive a prática da virtude e preocupações de tipo urbanístico e social, pois, " se dez homens não chegam para constituírem uma cidade, cem mil não podem também formá-la" (In Aristote, Op. cit. p 469), é necessariamente ver aqui a articulação entre a vida urbana e a vida dedicada à atividade do espírito. É ainda sob a preocupação de que a vida intelectual se não disperse, que Aristóteles acaba limitando o número de amizades e que estes amigos mantenham entre si as mesmas relações que têm connosco, isso evitará uma degradação - e respetiva alienação - de um relacionamento virtuoso.
Igualmente de considerar é o posicionamento deste autor relativamente aos políticos do seu tempo: Filipe da Macedónia, Alexandre o Grande, etc.,, não esquecendo a conspiração levada a cabo para assassinar Alexandre - que fora seu aluno - e em que estiveram envolvidos familiares de Aristóteles... aliás, para uma filosofia política que defendia a pequena cidade como poderia ser admitido o imperialismo de grandes monarcas?
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Alma ............ parte racional: a que possui em si razão; a que não faz mais do que obedecer.
........... parte irracional: parte desejante (que participa já de um certo grau de razão); parte
vegetativa.
(Cf. Éthique a Nicomaque ,pp 83-86)
Estando a parte desejante sempre sujeita às admoestações da parte racional, é exatmente nesta última que, ao mais alto grau, se processa essa atividade que está mais conforme com o homem: a Contemplação!, à qual acede o sábio, ou seja, o homem virtuoso. É, portanto, a Contemplação (que não é uma mera disposição, mas uma atividade!) a tal atuação adequada à virtude do próprio homem, "pois parece que o intelecto constitui o próprio ser de cada homem, ou, pelo menos, a sua parte principal" (In Aristote, Op. cit. p 444), uma vida de acordo com essa parte privilegiada será necessariamente a mais nobre para o homem. Articulando esta teoria com o esquema da alma indicado, poderemos dizer com Aristóteles: "Mas se a Felicidade é uma atividade conforme à virtude, é racional que seja uma atividade conforme à mais alta virtude e esta, por sua vez, será a virtude da parte mais nobre de nós" (In Aristote, Op. cit p 508): o intelecto.
Mas, para conseguir esta Felicidade, tem o homem virtuoso ( o sábio) de se isolar do todo social? De se privar de amizades?
4.2. - Uma coadjuvante: a Amizade
Uma das questões mais polémicas na ética aristotélica é exatamente a virtude moral da amizade, dependente, evidentemente, de uma virtude de pensamento , é esta articulação que leva Aristóteles a um estudo sobre o amor próprio: Platão condenara-o como a causa da perversidade moral, mas este filósofo "(...) vê nele o verdadeiro princípio do altruísmo... " (esta citação refere-se à pagina 28 de uma obra de Leon Robin, mas, pelo que se disse no início deste estudo, não é possível saber ao certo que obra será!).
A amizade é agora, não só uma condição da Felicidade, mas até o próprio coroar de toda uma opção ética, aliás, "(...) pareceria estranho que atribuindo todos os bens ao homem feliz, se lhe negassem os amigos, cuja posse é, ordinariamente, considerada como o maior dos bens exteriores" (In Aristote, Op. cit. p 461).
A vida do homem feliz deve ser uma atividade simultaneamente contínua e agradável e, para tal, ele procurará estabelecer com os seus amigos um diálogo frutífero. Esta relação assemelha-se a um intercâmbio, mas... o sábio sendo feliz de nada mais precisa já, então, o amigo só pode ser uma espécie de um seu desdobramento, uma outra face de si. Quando o homem virtuoso proporciona o enriquecimento desse outro ele mesmo que é o seu amigo é a si que tem em vista, sendo o contrário igualmente verdadeiro. Vê-se, pois, que para o sábio egoísmo e altruísmo têm entre si uma relação dialógica, são duas faces de uma mesma medalha, e que a amizade verdadeira tem um caráter de necessidade para a conclusão da Felicidade, não podendo, no entanto, ser experimentada por quantos vivem sob o domínio da perversão, já que estes "(...) não tendo em si nada de amável, não têm nenhum sentimento de afeição por si mesmos" (In Atistote, Op. cit. p 446), mas só podendo ser vivida pelos homens virtuosos
4.3. - Por uma Ética comprometida
"Mas o sábio terá também necessidade de prosperidade exterior, pois é um homem" (In Aristote, Op. cit. p 519) e, como tal, precida de receber alimentos, que o seu corpo esteja de perfeita saúde, enfim, que muitas atividades concorram para sua Felicidade. Ora, isso só será possível em sociedade! É absurdo querer fazer "(...) do homem perfeitamente feliz um solitário (..:) porque (ele) é um ser político e naturalmente feito para viver em sociedade" (In Aristote, Op.cit. p 461), assim, devem concorrer para a Felicidade do homem virtuoso: os escravos, artesãos, comerciantes, camponeses e, de um modo geral, todos quantos para quem o problema da Felicidade não se põe, queremos dizer incluindo também as crianças e as mulheres.
A vida contemplativa é levada dentro da cidade antiga - estamos ainda longe da noção de sábio estóica - mas, no entanto, essa cidade ter-se-.á de pautar por fatores de dois tipos: uma atividade legislativa que incentive a prática da virtude e preocupações de tipo urbanístico e social, pois, " se dez homens não chegam para constituírem uma cidade, cem mil não podem também formá-la" (In Aristote, Op. cit. p 469), é necessariamente ver aqui a articulação entre a vida urbana e a vida dedicada à atividade do espírito. É ainda sob a preocupação de que a vida intelectual se não disperse, que Aristóteles acaba limitando o número de amizades e que estes amigos mantenham entre si as mesmas relações que têm connosco, isso evitará uma degradação - e respetiva alienação - de um relacionamento virtuoso.
Igualmente de considerar é o posicionamento deste autor relativamente aos políticos do seu tempo: Filipe da Macedónia, Alexandre o Grande, etc.,, não esquecendo a conspiração levada a cabo para assassinar Alexandre - que fora seu aluno - e em que estiveram envolvidos familiares de Aristóteles... aliás, para uma filosofia política que defendia a pequena cidade como poderia ser admitido o imperialismo de grandes monarcas?
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© Victor Oliveira Mateus (anos 70/ 80)
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domingo, 27 de maio de 2018
sexta-feira, 25 de maio de 2018
A Câmara Municipal de Castelo Branco e a Junta de Freguesia local acabam de criar o PRÉMIO INTERNACIONAL DE POESIA ANTÓNIO SALVADO, pelo que apresentaram à imprensa, no passado dia 24, todos os dados relativos ao referido Prémio:
- as inscrições dever-se-ão efetuar de 25 de maio até 31 de agosto do presente ano;
- as obras deverão ser originais e cada autor só poderá concorrer com uma obra;
- serão premiadas duas obras: uma em língua portuguesa e outra em língua espanhola:
- o Prémio terá o valor de 2.500E e haverá a doação de 30 exemplares do livro vencedor, em versão bilingue;
- o Júri do presente Prémio é constituído por onze nomes ligados à Poesia e/ou à Cultura: Alfredo Pérez Alencart, poeta, ensaísta e Professor da Universidade de Salamanca, será o presidente do Júri e os outros membros são: Fernando Paulouro das Neves, Rita Taborda Duarte, Victor Oliveira Mateus, Paulo Samuel, José Pires, Manuel Nunes, Maria Barata, António Pereira, António Cândido Franco e Enrique Móran.
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Para mais informações consultar as entidades referidas.
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quarta-feira, 23 de maio de 2018
Libérame Dómine
Salva mi corazón de la tristeza, de la memoria de ese muchacho que ve alejarse el humo de los barcos y fluye en él la compasión. Líbrame de los que viajan, del puríssimo hilo que une la yema de los distantes, de la abeja y su hélice, de todo lo que derramado en miel se esparce en mi alma como una estela de leche.
Líbrame del mar, de ese mar que soñé como un bosque sin pájaros, de las voces que oí, el grito de la luz al romperse las lámparas y el estambre de nácar con que la tañedora de arpa roza la libélula verde de la que manan los sueños.
Y huya también mi corazón de los camarotes de plata, del gesto de la institutriz que va atenta al centauro, que va atenta al deseo cuando el marabú de la noche extiende sus sedas sobre los cuerpos desnudos, sobre los cuerpos con fiebre como jardines dormidos, vigilantes los ojos que solo ven en lo oscuro la curiosidad de su anhelo: el vaho caliente de la sangre de um cisne.
Sálvame del filo de sus párpados muertos, del crótalo sin labios que oiré toda la muerte, que oiré toda la vida tallado en maravilla porque hay obscenidad en mi alma y otros meteoros y hay presentimiento, rosas de calcio debajo de la nieve, geodas con el pétalo auroral de la Luna, ángeles de cera derritiendo cuchillos.
Salva mi desolación de esa certeza, de la viudez y su hebra de oro con la que bordarás esta sábana. Y así, por el cristal de lo que hierve sin término, vendrán a mi corazón todas las cosas, el gamo que engendra bajo los racimos de hielo y luego, desciendo a los pastos, instaura el rito de la primavera; el ánade que en la viitrina de los taxidermistas tan desesperadamente respira lo último de su música; la jaula vacía del bisonte, los ojos desbordados de ese niño que perdido por el laberinto de los zoológicos conoce por primera vez la angustia y se sobresalta y huye de un relàmpago que no lo persigue.
Líbrame del silencio, salva mi soledad de esa sombra perfecta, porque bajo las constelaciones los amantes se envían cartas y escarcha y métodos para el amor, y se escriben palabras indescifrables y tienen presencias y revelaciones, y y esa tinta los humedece de lágrimas y los hace ser tristes y vagan por los parques, en la docilidad, tras el júbilo.
Hasta que una mañana no regresan del Pataíso, y en la casa de huéspedes la sirvienta, al descorrer los visillos, descubre el vacío y grita y da grandes aullidos filológicos y se produce entonces el florecimiento de la poesía.
Líbrame, sálvame de la claridad sobre las láminas de la escritura.
Mestre, Juan Carlos. La Poesía Ha Caído En Desgracia. Madrid: Calambur Editorial, 2014, pp 134-135.
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terça-feira, 22 de maio de 2018
Começar uma estrada
Eras tu que confundias o fundo
dos jardins com os vasto perfume
de uma estrada. A paisagem entretanto
libertava-se como uma espécie de segredo
que efervescesse num copo de água
e apesar do tempo severo das partículas
nós víamos de facto começar uma estrada.
Pergunto-me o que fizemos desses dias
alugados a uma melhor desconfiança,
o que foi que em nós escolheu
envelhecer sem ambição,
onde é que a noite parou de crescer,
em que consiste a música extrema
dos desembarques.
No fim, as flores aprenderam a prolongar
o frio das estátuas. A estrada perdeu-se
como alguém tinha previsto que o universo
se perderia se fosse por de mais escrutinado.
Os dias devoraram a paisagem.
E inadvertida, a tristeza afundou-se
no coração do matagal.
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Domingues, André. Tempestade das mãos. Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2017, p 60.
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Os teus retratos
Fecho os olhos e descubro.
Há um secreto odor de lobo por todo o lado
onde o amor cresceu contra a espessura
de um destino.
Há um idioma repulsivo como uma manta de retalhos
uma mágoa navegável, uma máquina de culpa.
Há uma voz do avesso e uma música
irrefreável que pulsa.
O dia é trânsito absoluto. Oração sem luz.
A pobreza extrema de uma fábula.
Agora sei: o estranho costume de sofrer por ti
deixou-me puro. A dor, entretanto, foi perdendo
o pormenor. O mundo elidiu o alívio.
A casa tornou-se parte do pó.
Já não há história, mas uma máscara
que flutua sobre a fama dos despojos.
Já não há pureza na página,
no tempo, na conjugação.
Chegarei a ti com a convicção lenta dos crepúsculos
suportando uma moldura de instantes desarmados.
Chegarei sem saber como saciar a minha chegada.
Chegarei a ti inútil como a morte.
Com a calma delirante de um fracasso.
Sem fogo nem perguntas: nos lábios
apenas o grito branco de uma praia.
E tu dirás o quanto o silêncio te pesa
entre as rosas e as falsificações.
E no meio das tuas mortes predilectas
eu vou outra vez erguer a voz.
E só então a noite suspenderá
os teus retratos.
Domingues, André. Tempestade das Mãos. Coimbra: Debout Sur L'Oeuf, 2017, pp 25-26.
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segunda-feira, 21 de maio de 2018
indelével é a concentração da matéria estelar
e não sei que paralaxes de corpos o anunciam
oh elocução do vento desvairando a erva eriçada
com os poros abertos convocando para cerimónia
quero os amuletos e os seus nsopes na voz rouca
da língua incitando a saliva onde desaguar o beijo
Okapi, Sangare. os poros da concha. Maputo: Cavalo do Mar edições, 2018, p 21.
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domingo, 20 de maio de 2018
Retorno
Meu erro é meu caminho. Duro
é esta consciência larga, esta
nítida visão das horas frias.
Pois não durmo: recordo.
E é voraz a noite da memória.
Paisagens nítidas estão feridas
por meus olhos - cactus - incuráveis.
E é daqui que me tomo
(ou retomo)
para trilhar-me.
Que o tempo são meus caminhos
e eu sobre eles, lembrado. Eu e meus vários
que as lembranças retomam: um
é remorso, outro é menino, outro viajou
e não retornou da viagem...
Uma tarde, há muitos anos, fiquei sozinho
e sorri: o tempo (então deus imóvel)
ligou em mim suas máquinas:
o tempo com seus traumas, obscuros
mapas, seus cães.
E me perdi.
E em saudades me multipliquei,
senti sonos, desejos, projetei, construí.
Sim, uma tarde, há tantos anos,
e me negociei com meus enganos. Ali.
Pereyr, Roberval. 110 Poemas. Salvador - Bahia: Quarteto Editora, 2013, p 110.
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